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A inquietação de ser Vera Marmelo

A primeira vez que me sentei a conversar com a Vera Marmelo foi há mais de três anos. Eu achava que era há mais tempo, porque parece que entretanto a Vera já fotografou uma vida; ela acha que  em três anos cabe muita coisa e por isso, este tempo passou a voar. Sendo assim, o que é que realmente mudou de lá para cá?

“Continuo a dormir na mesma cama, a fazer as mesmas coisas. A trabalhar, a fotografar concertos e a reagir ao que me pedem. E às vezes isto parece-me tudo muito poucochinho até que me organizo”, diz. Mais do que a fotografia, o mote da nossa conversa foi esta revisão da matéria dada, um saber onde se andou para perceber onde se está.

 

2014 – 2017

Quando nos encontrámos em 2014, Vera vinha no rescaldo de um ano complicado. Teve uma fase menos boa no início de 2013 que classifica de forma irónica como “aquele clássico do fizeste 27 anos”. Entretanto, é publicado o seu primeiro objeto fotográfico – um caderno de posters de edição limitada com 13 retratos de músicos portugueses – e isso trouxe-lhe bastante atenção mediática. As constantes solicitações para falar sobre o seu trabalho levaram à necessidade de criar um discurso sobre ele, ou seja, de o esmiuçar e de o organizar na cabeça. Essa energia, que define como “reaprender a comunicar”, fez com que saísse do casulo. Recomeçou a fotografar mais e publicou um livro, este já em 2014 e em parceria com o fotógrafo Luís Martins, a propósito do 20º aniversário da ZDB.

A partir daí, o rastilho acendeu-se e o resto é história. “A ZDB [com a qual tem uma relação próxima e local onde fotografa mais vezes] tem cada vez mais programação e eu também começo a interessar-me por ainda mais coisas. Começo a estar ainda mais presente e por isso conheço ainda mais pessoas; a cidade também começa a ter mais oferta cultural. E é por isso que tens a sensação de que me vês mais presente nestes últimos três anos”, explica Vera.

Em paralelo, houve também uma mudança na forma como utiliza as redes sociais. O Instagram deixou de ser uma ferramenta de uso mais pessoal e passou a ser uma montra para divulgar de forma imediata o trabalho que faz. Com uma nova câmara digital que se sincroniza directamente com o telemóvel, chega a partilhar as primeiras fotos de um concerto que acabou de fotografar ainda no barco a caminho de casa, no Barreiro. “A forma como uso o meu Iphone e o Instagram desde 2012, quando comprei o telefone, até agora mudou imenso. Há seguidores só do Instagram que desconhecem que eu tenho um blog tão ativo”, diz.

O blog foi e continua a ser o sítio onde podemos ver tudo o que fotografa. Em 2016, esta plataforma comemorou 10 anos. Um número redondo e já significativo para quem tem apenas 33 de vida e que levou à necessidade de olhar para trás. Foi assim que surgiu o site, mais para tentar perceber onde tem andado a gastar o tempo e para organizar mentalmente as relações que criou nessa década do que para mostrar trabalho.

A plataforma está dividida em três períodos temporais: 2006 – 2009 / 2010 – 2013 / 2014 – 2016. Em cada um estão as fotos mais significativas tiradas nessa altura. Para chegar até ai, foram necessários 18 dias completos de trabalho, mais algumas horas soltas depois do emprego e aos fins-de-semana, e a precisão de engenheira (o seu ‘day job’) de Vera Marmelo. “Tudo comigo demora mais tempo do que com uma pessoa normal, mesmo sendo hiperativa e muito produtiva. Continuo a ter um ‘nine to five’. Rever um arquivo de 10 anos implica escrever todos os nomes que fotografei naqueles intervalos de tempo, o número de vezes que cada um tinha sido fotografado, tentar ligá-los tipo árvore genealógica, perceber a importância que estas pessoas tiveram e a visibilidade e o impacto que isso também teve nas minhas imagens”, explica. No fundo, estão presentes neste arquivo dois tipos de músicos: aqueles com quem passa mais tempo e com quem faz questão de estar sempre presente, porque também são amigos, como é o caso de Tiago Sousa, fundador da editora Merzbau, e Nick Nicotine, o Sr. Barreiro Rocks; e os que mais produziram e tocaram nesse período de tempo, justificando a presença constante da fotógrafa. “Como aquele relógio que tens sempre no pulso. Já nem te lembras, porque ele está sempre ali”, brinca. Nesta última categoria, podemos encontrar, entre outros, os Orelha Negra, B Fachada, D’Alva e, mais recentemente, Gabriel Ferrandini.

Há também uma secção dedicada às fotos do mês – as do mês anterior desaparecem para dar lugar às do mês seguinte.

No fundo, é um dos arquivos mais completos sobre a movida da música portuguesa nos últimos 10 anos. São poucos os músicos que Vera não fotografou. Mas o seu objetivo não é ficar para a História, mas sim contar as estórias. Não quer ser artista e diz-se bastante à vontade na posição de documentar o momento, de ver o seu arquivo crescer e torna-se valioso. E este termo é usado apenas com a ambição de ter o valor de um álbum de família. “Não te podes esquecer que não estás sozinho. Eu fico muito contente quando há mais gente, mais pontos de vista, mais hipóteses de teres as coisas guardadas. Se há mais gente, tens mais a certeza de que estás no sítio certo e que estás a fazer alguma coisa que vale a pena”, afirma.

Foi deste trabalho quase arqueológico que saiu uma publicação comemorativa dos 10 anos do blog. Feito em parceria com a Desisto e publicada a 12 de Dezembro de 2016 (data de aniversário da Vera) este objeto era um poster em formato gigante, dedicado ao trabalho feito entre 2006 e 2009. De um lado, tinha vários frames pequenos e do outro, duas fotografias grandes que, ao dobrar o poster, podiam ser emolduradas, escolhendo uma delas.


A relação física com a câmara – do analógico para o digital

Outra das novidades desde 2014 é uma parceria com a Fuji que consiste numa série de conversas geridas por Vera e patrocinadas pela marca. Já foi à FNAC da Madeira e, em breve, irá ao Auditório do Edifício de Portugal e à ETIC. A entrada é livre, mediante marcação. A ideia é sempre falar menos sobre os aspetos técnicos e mais sobre a sua experiência pessoal e motivações.

Embora a parceria se tenha concretizado depois, podemos dizer que de alguma forma começou no momento em que comprou a [câmara] XT1 e não quis outra coisa. A intenção era usá-la como máquina pessoal, uma vez que a dos concertos era demasiado pesada para esse efeito. Aos poucos, acabou por transitar também para o lado profissional e a alterar a relação física que tem com a máquina e com o acto de fotografar. “Teres nas tuas mãos uma câmara tão pequena levou a que eu voltasse a fotografar mais na vertical, o que tinha deixado tanto de fazer com a câmara digital grande, e o formato vertical agrada-me imenso para tudo: retratos, música ao vivo. Eu gosto de ver os ombros encaixados no formato, dessa cena mais física do vertical. E depois tens a invisibilidade, quando tens uma câmara tão pequena és ainda mais invisível, estás no meio do público e ninguém dá por ti”, explica.

Diz também que começou a ter muito entusiasmo por ver “no escuro” e por observar o mundo através do ecrã digital. Teve também muito gozo a reaprender a editar, a encontrar novamente “as suas cores”, porque cada máquina é diferente.

O médio formato analógico, o seu favorito em 2014, continua a usá-lo para retratos, aos quais a amplitude do erro e a beleza do filme serve que nem uma luva. “Podes falhar imenso a ler a luz, por exemplo, mas a nível estético o filme salva-te sempre”, afirma.

 

2017 – até ao futuro previsível

Vera Marmelo começou a fotografar como forma de justificar a sua presença no meio dos amigos músicos e como desbloqueio social. Havia a energia de querer mostrar o que estava a ser feito, mas também a motivação pessoal de tentar perceber melhor a dinâmica de viver em sociedade e de comunicar com o outro. Hoje em dia, diz que continua mais por reação do que outra coisa, à espera do momento em que tudo vai fazer sentido, mas com a certeza de que até agora tem sido tudo muito bom. “Não me posso queixar. Sou muito grata à ideia de que uma câmara fotográfica me permite estar presente em momentos em que mais ninguém poderia estar. Seja numa festa particular, no backstage de um concerto ou num ensaio de som”.

Orientou a vida de forma a não fazer da fotografia a sua principal forma de rendimento. Com essa decisão vem a liberdade de fotografar apenas o que lhe interessa. Com isso, diz que faz um melhor trabalho e que é essa qualidade que faz com que as pessoas chamem a Vera Marmelo e não “uma fotógrafa”. É uma escolha que implica poucas horas de sono, muitas dores de costas, férias dedicadas a trabalhar e investimento do próprio bolso. Um dia normal na vida de Vera Marmelo pode implicar estar 17h fora de casa. A título de exemplo, no dia quem nos encontrámos, para além das horas de trabalho, se conseguisse assistir a todos os concertos que tinha nessa noite, seriam seis ao todo. Depois ia para casa selecionar e editar as fotos para as colocar online na manhã seguinte. Quando fotografava em analógico, o processo era igual: revelava o filme à noite, de manhã as fotos estavam secas, eram digitalizadas e colocadas no blog.

Esta rapidez é uma exigência das redes sociais – o concerto de hoje só tem prazo de validade até amanhã – e do facto de ter um tempo limitado para editar, mas também é uma caraterística pessoal. Há nela esta urgência, esta necessidade de estar sempre em movimento, mesmo que não saiba bem para onde vai. “Tu habituas-te [a este ritmo] e depois são as expetativas, as minhas e as dos outros. E eu achar que o mundo vai acabar amanhã e quero ir a todas”.

Esta “fome” vem do mesmo sítio que diz “não me vejo a falhar, mas já sofri mais com a antecipação de que isto vai acabar” e é alimentada, entre outras coisas, pela energia dos mais jovens. Diz que se esforça por estar sempre muito próxima das bandas que estão agora a começar, porque vê as coisas pelos olhos deles, sempre cheios de pica. “Desde que eu me continue a sentir confortável, enquanto achar que é válida a minha presença, enquanto houver histórias para contar e enquanto eu continuar a achar que aquilo que eu estou a fotografar é relevante de alguma forma, vou continuar. Vai chegar a um momento em que não me vai apetecer ou vou achar que já não vou estar no sítio certo. Não quero envelhecer mal nesta cena do rock e não entender que é ok estar simplesmente a observar a energia, sem participar”, diz.

Colaboradora da Umbigo desde 2000 e troca o passo, a relação tem sobrevivido a várias ausências e atrasos. É formada em Design de Moda, mas as imagens só (lhe) fazem sentido se forem cosidas com palavras. Faz produção para não enferrujar a faceta de control freak, dança como forma de respiração e vê filmes de terror para nunca perder de vista os seus demónios. Sempre que lhe pedem uma biografia, diz uns quantos palavrões e depois lembra-se deste poema do Al Berto, sem nunca ter a certeza se realmente o põe em prática ou se é um eterno objectivo de vida: "mas gosto da noite e do riso de cinzas. gosto do deserto, e do acaso da vida. gosto dos enganos, da sorte e dos encontros inesperados. pernoito quase sempre no lado sagrado do meu coração, ou onde o medo tem a precaridade doutro corpo"

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