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10 Anos de EMPTY CUBE

Criado por João Silvério, EMPTY CUBE é um projeto de curadoria que completa agora dez anos de atividade. Ao longo desse período muitas coisas mudaram no mundo da arte que acompanha mais ou menos as flutuações e volatilidades do mundo dito real. Mas o EMPTY CUBE mantém-se fiel ao conceito original, com uma programação regular e relativamente densa.

O seu caráter nómada acrescenta valor e interesse em vez de subtrair o que quer que seja e é muitas vezes síntese do que constituem as plataformas híbridas que se pugnam pela autonomia e independência dentro do mundo da arte. Dez anos, em condições incertas – não necessariamente precárias –, é um grande feito para os que veem nestes exercícios experimentais uma alternativa à institucionalidade dos museus ou de certas galerias.

2017 é, portanto, um ano de celebração para João Silvério que teve um ano repleto de inaugurações de exposições por si comissariadas. Desde O Olhar de Sibila, no Museu do Oriente, a muitas das exposições que festejam os 10 anos do MACE, à recentemente inaugurada Ana Hatherly. Território Anagramático, na Fundação Carmona e Costa, bem como ao comissariado desenvolvido no EMPTY CUBE, Silvério faz agora uma súmula da sua profissão, do seu projeto e da disciplina de curadoria.

José Pardal Pina – O EMPTY CUBE já passou por várias fases. Em que fase se situa agora, depois de ter mudado de instalações e de ter funcionado como projeto nómada?

João Sivério – O EMPTY CUBE é, primeiro que tudo, nómada na programação enquanto conceito curatorial, porque não se obrigou a seguir nenhuma disciplina artística, olhando primeiro para o processo de trabalho dos artistas em confronto com as condições do próprio projeto. Do ponto de vista material, físico, saiu para outras cidades, e também dentro da cidade de Lisboa. Para espaços não comerciais, mas poucas vezes, como por exemplo em Tomar, Coimbra, Guimarães (Capital Europeia da Cultura em 2012) e para o Espaço Alcântara em Lisboa.

Neste momento o EMPTY CUBE está a direcionar o seu plano de ação para a constituição de uma editora (uma ideia pré-existente), e também continuará com os projetos online que chegam por email a um público muito diversificado. Os Special Projects for EMPTY CUBE, são feitos por expresso convite meu a artistas nacionais e estrangeiros em diversos quadrantes geográficos e terão um lugar na página online com um texto sobre esse trabalho.

JPP – O espaço de instalação das obras é um dos pilares do EMPTY CUBE. Como se gere um programa cujo espaço de acolhimento muda regularmente? Mudar de espaço não obriga à revisão do programa?

JS – O EMPTY CUBE mudou poucas vezes de espaço, por falta de meios financeiros. O espaço inicial, na Travessa da Manutenção (cedido pela Galeria Filomena Soares) e a Appleton Square, em Lisboa, foram a “sede”, por assim dizer, dos vários projetos realizados. Quanto à questão da programação, essa não sofre mudanças relevantes porque o projeto tem uma condição time-based e um espaço que pode ser ele próprio uma parte da obra. Não é, desse ponto de vista, decisivo. Contudo, em contextos locais mais descentralizados o acontecimento de uma só noite provoca, ou provocou, uma certa estranheza por não se poder voltar e regressar àquele projeto artístico. Mas isso também se passa em Lisboa.

JPP – Os projetos independentes ou autónomos, que fogem às regras museológicas, foram desde o início muito importantes na manifestação e consolidação de movimentos e expressões alternativas. Contudo, a maior parte acaba por ter pouca duração e os que vivem por muito tempo, passam por dificuldades substanciais. 10 anos é muito tempo nestas condições. Como vive o EMPTY CUBE, num país onde o dinheiro para as artes e a cultura é sempre diminuto?

JS – Essa questão é suficiente para fazer um número da revista, se me permitem a sugestão. A questão dos apoios da tutela é muito complexa e muitas vezes discutível. Mas creio que é assim por natureza, embora em Portugal a situação seja difícil, (e creio que já foi mais) continua muito difícil porque os projetos cresceram e os meios não acompanharam esse crescimento. Por um lado, porque não somos um país rico. Por outro lado, por uma desatenção sistémica da tutela e consequentemente pelo eco que este deficiente apoio provoca no setor privado, do meu ponto de vista.

Não é, sublinho, uma questão de subsidiodependência, é um conhecimento do meio e do campo de trabalho em que certos projetos não são rentáveis, não oferecem imediatamente um retorno, até em termos de imagem promocional.

O EMPTY CUBE pela natureza efémera e expectante, frente a um projeto interessante, não se enquadrou nunca nos parâmetros dos concursos da tutela e até de instituições privadas, como por exemplo não ter uma programação anual a anunciar.

Quanto à década de trabalho que o EMPTY CUBE comporta, essa deve-se essencialmente aos artistas nacionais e estrangeiros que apresentaram um projeto que fazia sentido. E após um ano em que o EMPTY CUBE teve um patrocinador privado que não quis renovar o apoio, porque o retorno de um projeto deste tipo não era suficientemente visível para promover a empresa patrocinadora, fui avançando com meios próprios. Mas chegaram também pequenos apoios, para além do já referido apoio logístico da Galeria Filomena Soares e posteriormente da Appleton Square. Ou seja, o EMPTY CUBE, com exceção desse ano que referi, não teve apoios significativos. Foram pontuais, mas muito generosos.

JPP – A página do projeto apresenta uma lista considerável de artistas com os quais o João e o EMPTY CUBE trabalharam. Do ponto de vista da curadoria que lições tira destes 10 anos?

JS – A lista de artistas é a história do próprio projeto que foi concebido para apresentar o seu trabalho. Pelas caraterísticas intrínsecas do mesmo (e que podem ser lidas no breve texto da página inicial) cada projeto é único e depende apenas do trabalho de cada autor em cooperação com a minha função curatorial.

Posso dizer que do ponto de vista da produção houve diferentes patamares de complexidade, de dificuldade, de execução. Mas do ponto de vista da curadoria houve sempre um trabalho estreito (falo como curador, os artistas dirão se assim foi) e produtivo que tentou respeitar, e levar a cabo, o projeto proposto.

A diversidade da criação contemporânea, no âmbito deste projeto específico, é a sua ossatura. Umas das lições que tiro é que o trabalho curatorial é sujeito ao sufrágio dos artistas, porque é a partir da obra deles que, no meu entender, nós, curadores, trabalhamos. E no caso do EMPTY CUBE é, de facto, a sua essência.

JPP – Partindo da experiência profissional vasta que já teve, parece-lhe que o curador tem sido um importante agenciador de projetos para artistas? Isto é, o curador como catalisador de ideias e práticas desenvolvidas por artistas?

JS – No meu trabalho como curador com artistas que estão presentes, que estão vivos, questiono-me muito e tento apreender com as suas metodologias práticas e conceptuais. Mas também com o facto de o trabalho me surpreender. Eu trabalho com o artista, não propriamente sobre o artista. Interessa-me acompanhar o processo de trabalho e estabelecer um confronto que ponha uma questão. E quando o trabalho curatorial passa para a escrita sobre a obra – que é sempre, do meu ponto de vista, uma aproximação – discutir o contexto em que a obra se insere.

Noutra perspetiva, quando se trabalha com a obra de artistas que já não estão vivos, essa dimensão de que falava faz falta. Mas, como é irrecuperável, procuro, quando é possível, outras pessoas para compreender algo que me escapa no seu trabalho. Porque há sempre algo que nos escapa, inclusive subjetivamente, nos dois sentidos da interpretação e da intencionalidade que está subjacente na obra.

Um curador pode apresentar uma proposta ao artista, uma ideia, mas o elemento catalisador vem do lado da criação, da desarrumação que o artista nos propõe e nos provoca.

E não creio que o curador seja uma condição para o trabalho artístico. Há muitas exposições individuais e coletivas, independemente de gerações e de processos, que são muito estimulantes e não tiveram curadoria.

JPP – Tendo em conta a curta duração das propostas, existe alguma preocupação em documentar e registar todos os projetos para que um alongamento temporal possa acontecer? Enquanto curador, o arquivo e os documentos suscitam-lhe interesse e motivo de trabalho?

JS – O EMPTY CUBE foi dotado desde o início de uma página online bilingue, para que todos tivessem acesso. Esse é, do meu ponto de vista, um registo atualizado mas que no decorrer desta década consiste num arquivo, modesto no que é visível, mas que pode ser consultado. E dentro das minhas possibilidades e de todos aqueles que colaboraram, de uma forma ou de outra, é uma responsabilidade que assumo em manter e conservar documentação vária, em diversos suportes, como maquetas, e outros elementos físicos e digitais, que foram determinantes para que cada projeto se realizasse. Esse é o legado que os artistas, e outros colaboradores, deixaram ao projeto e que um dia será um arquivo disponível.

José Rui Pardal Pina (n. 1988) cresceu em Campo Maior e estudou no agrupamento de Artes em Elvas. Obteve o grau de mestre em arquitetura pelo I.S.T. em 2012. Terminou o estágio de admissão à ordem e o estágio profissional no atelier António Barreiros Ferreira – Tetractys Arquitectos. Em 2016 ingressou na Pós-graduação em Curadoria de Arte na FCSH-UNL e começou a colaborar na revista Umbigo. Interessa-se por arte, cinema, política, literatura, moda, arquitetura, decoração…

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