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Arte que repara (em discurso direto)

Estamos numa peregrinação pela arte. Ou a arte está numa peregrinação por nós – isso se partirmos do pressuposto que a arte é propriedade ativa que existe por nós e para nós. Que existe em nós. O título é curioso. Sim, mas só nesta dimensão que falávamos – arte que cura, que repara através do olho de quem vê. É toda outra religião. A arte como redenção – talvez a mais nobre das visões da arte. E já passámos por exposições em espaços outrora religiosos… Estou mal disposto. Um peso no estômago, percebes? A arte só repara o que de mais imaterial existe. A indisposição não. Sim, mas pode suscitar uma mudança num espírito prático, que se pugne pelo belo, que procure ele mesmo a reparação da corrupção, do erro, do desvio. Talvez haja uma revisitação de ideia apolínea da arte. Ou da arte como revelação de um ego tirânico, que nos obriga a libertar deste. Há algo de schopenhaueriano, mas sem o lado pessimista.

Estás a ver o reflexo da abóbada em canhão? Estes destroços… É isto uma hipótese arqueológica do arquitetado? Estes tijolos pertencem aonde? Que estruturas suportaram, que vidas passaram por eles sem se darem conta daquilo que as abriga, do espaço que contêm, do conforto que conformam? É isto a memória do edificado? A disposição não é aleatória. Há um racional por detrás. Há um desenho e uma vontade de criar um novo espaço – abstrato, com certeza; mais mental que físico, com certeza – um espaço feito de despojos de ontem, de despojos de outrem. (Duplo Negativo, 2017, Fernanda Fragateiro)

De onde vem esta música? Do escuro da tua infância. Está tanto frio e não vejo nada. Mas sinto-me tão reconfortado. A voz… É uma voz velha. Mas a fluidez continua lá. O murmuro da água que escorre. Podia ficar aqui uma eternidade. Até que idade consegues recuar na tua memória? Tens imagens? Imagens mentais, apenas, daquelas que não se descrevem. São imagens sonoras, muitas vezes. Ou olfativas. Por vezes é só uma cor. Lembras-te de sair da vagina da tua mãe? Cesariana. (C’est le murmur de l’eau qui chante, Louise Bourgeois)

Só podem entrar – no máximo – duas pessoas. Vejo-vos no outro lado. (Absoluta escuridão. Não há referencial, mas parece um corredor imenso. Devo continuar ou perguntar à voluntária o que se passa? Acendeu-se uma luz. Assim é mais previsível, já sei que devo continuar e que há sensores. Não estou completamente só. Hesito na velocidade dos meus passos. Apaga-se a luz não mais incandescente que uma vela. Prossigo: outro foco. Olho para trás: vazio; completa solidão. Se vomitar aqui, ninguém se apercebe. Em frente, outra luz se acende. E outra. E outra ainda. Mas há mais luz, a luminosidade é progressiva, consigo ver mais: o teto é alto; abobadado, também; reconheço os sensores, a cal que começa a cair das paredes, a rugosidade das pedras do pavimento. Pela primeira vez dou conta do ambiente decadente em que se encontra o mosteiro, do abandono a que foi deixado. Ao próximo passo vou ter mais luz e o medo vai sendo menor. Devo ter percorrido cinco quilómetros, dez – sei que demorei uma eternidade. Quatro focos alumiam agora o meu caminho. Cinco, seis, sete. E então e fecho os olhos de dor e recuo. Enquanto isso, negrume, novamente. Abro as pálpebras cego com um retângulo espectral gravado na retina. Mexo-me e sou de novo assaltado por uma brancura insuportável, agora de olhos bem abertos, exposto à revelação, à epifania, ao momento em que tudo se torna claro e que a alma, escancarada pela franqueza da luz, se solta do corpo e da mente e nos ralha perante a nossa insignificância quanto à beleza das coisas. E o branco volta negro, no mesmo instante em que voltou branco, no mesmo instante em que tudo continuou cinzento.) (Estudo para Cura, 2017, Julião Sarmento)

Já experimentaste a hipnose? Se calhar fazia-te bem e curava-te a ansiedade. Não. Estou demasiado partido para ser reparado ou curado. Olha este mapa de símbolos. Estão aqui todas as imagens-base da nossa cultura. E que cultura é essa? Bem, está desatualizada. Criámos outras mitologias, outros mundos, outras formas de ser. O homem e os seus símbolos extravasam o que aqui está. O homem globalizou a sua existência, universalizou-se. Sim, mas esses símbolos novos será que falam ainda da transcendência? O homem procurava nos símbolos confirmações de uma certa transcendência (religiosa, intelectual, cultural, comunitária, etc.). Ainda temos símbolos, na era do digital? Os símbolos são representações abstratas de uma ideia. As ideias ainda existem, mesmo que alienadas do espaço que historicamente designámos de real, físico. As ideias continuam a permear pelos fluxos óticos e os cabos de filamentos de cobre. O capitalismo introduziu muitos símbolos: logotipos que passaram a adotar um estatuto superior e se tornaram registos simplificados de nações, culturas e massas. Ainda é possível aceder ao inconsciente através desses símbolos? Sim, creio que sim. Acontece que é um inconsciente mais superficial e não sei se merece o tempo despendido a tentar aceder ao dito. E aos sonhos? Não. Em geral, o homem deixou de sonhar. Estou mal disposto. Já viste aquele meme pornográfico? Não, só o dos gatinhos. (Man and His Symbols, 2016, Matt Mullican)

Comissariada por Delfim Sardo e Luiza Teixeira de Freitas, Curar e Reparar, Bienal de Arte Contemporânea de Coimbra, anozero’17, até 30 de dezembro, em vários locais da cidade de Coimbra. Consultar o programa aqui.

José Rui Pardal Pina (n. 1988) cresceu em Campo Maior e estudou no agrupamento de Artes em Elvas. Obteve o grau de mestre em arquitetura pelo I.S.T. em 2012. Terminou o estágio de admissão à ordem e o estágio profissional no atelier António Barreiros Ferreira – Tetractys Arquitectos. Em 2016 ingressou na Pós-graduação em Curadoria de Arte na FCSH-UNL e começou a colaborar na revista Umbigo. Interessa-se por arte, cinema, política, literatura, moda, arquitetura, decoração…

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