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The Necks @ MADEIRADiG

“Isto é um verdadeiro luxo”

Formado na Austrália em 1987, The Necks é um dos melhores trios de jazz experimental do mundo e tivemos o privilégio de ouvi-los na Madeira, na digressão comemorativa dos seus 30 anos. São um portal para outro universo, que provavelmente passaria despercebido se tocassem música com uma maior velocidade de variações. Chris Abrahams (piano e orgão Hammond), Tony Buck (bateria, percussão e guitarra elétrica) e Lloyd Swanton (baixo e contrabaixo) compõem os The Necks.

Elsa Garcia – Muitas pessoas provavelmente já vos colocaram esta questão, mas como podem três músicos soar como se fossem dezoito?

Chris Abrahams – Desculpa, disseste dezoito ou oitenta? [N.T.: Piada devido à semelhança fonética em inglês de eighteen (18) e eighty (80)]

EG – Não, oitenta é muito (risos).

CA – Não sei, é uma pergunta complicada. Fazemos as coisas acontecerem, não tenho bem a certeza. Algo que se faz com a reflexão do som na sala, os próprios instrumentos e a física. Muitos fenómenos complexos, todos juntos, no momento da atuação.

EG – É de facto magia, uma experiência quase religiosa…

CA – Quer dizer… para mim é, isso é verdade.

Lloyd Swanton – Penso também que uma outra possibilidade será que, à medida que a peça vai avançando, a perceção do ouvinte altera-se. Algumas das coisas que acontecem, numa situação mais complexa passariam despercebidas, mas por vezes a mais pequena alteração de tom, pode não só alterar o tempo ou o ritmo como cria por si só essa ilusão de grande profundidade.

EG – Na verdade criam universos paralelos para as pessoas que ouvem a vossa música. É essa a razão que leva a que todos os concertos sejam diferentes e uma experiência única?

CA – Muito do que fazemos é bastante específico. Por exemplo, o auditório onde tocámos ontem à noite era muito diferente do teatro onde atuámos há duas noites, muito amplo com superfícies muito duras, sem lugares sentados… Tudo isto afeta não só a forma como a música soa, mas também a forma como tocamos.

EG – Como foi a vossa experiência na noite passada? Foi a vossa primeira noite na Madeira e neste festival.

CA – Foi fantástica. Uma experiência maravilhosa passar uns dias aqui, afastados do mundo. E a razão de estarmos aqui foi fazermos um grande concerto… por isso foi uma experiência ótima em todos os aspetos.

LS – Adoro o facto de ser um festival pequeno, pequeno de propósito, para pessoas que vêm à procura de um tipo de experiência muito específico. Não se trata de fazer dinheiro.

CA – Vindos da Austrália – bastante neoliberal – torna-se ainda mais importante. Espiritualmente sentimo-nos muito bem por fazer parte desta experiência fantástica que não tem que ver com dinheiro mas com arte e retribuição…

EG – Bem… trinta anos… é muito tempo… e como estão em digressão, como descrevem esta experiência após trinta anos?

CA – Cada digressão é muito boa e nós temos muita sorte. Viajamos e tocamos exatamente onde queremos tocar. Um verdadeiro luxo sermos reconhecidos e pagos para fazer o que gostamos.

LA – Penso que, após 30 anos, o que realmente nos espanta é o facto de ainda nos dar tanto gozo. Não houve nenhum plano de carreira prévio para esta banda. É por isso que como tínhamos as expetativas muito baixas para o grupo, nunca existiu nenhuma situação em que nos sentíssemos num beco sem saída sem poder avançar. Não tínhamos quaisquer expetativas. Éramos apenas três pessoas numa sala a querer tocar para si próprios… e agora estamos do outro lado do mundo a fazê-lo.

EG – Agora estão a acrescentar a eletrónica à vossa música …

Tony Buck – Não ao vivo. Existem algumas ocasiões em que tocamos num órgão de igreja, mas quando tocamos ao vivo é sempre com piano, baixo e contrabaixo. Quando gravamos um álbum em estúdio acrescentamos vários elementos e demoramos uma série de dias até que algo se solidifique. Depois começamos a construir a partir daí, não é apenas improvisação. Começamos a esculpir algo primeiro.

LA – Usamos sempre todas as ferramentas que estão à nossa disposição no estúdio. Há duas vertentes na nossa banda, uma são os espetáculos ao vivo, como o que viram ontem à noite, e a outra o estúdio, as gravações. Poderá haver algumas semelhanças mas são bastante diferentes. E nos últimos seis álbuns o Tony tem tocado guitarra e bateria…

EG – Do vosso universo musical fazem parte o rock, jazz, música erudita. Existem vários elementos numa única composição. Como se processa o vosso trabalho quando estão a gravar um álbum?

LA – É sempre diferente e para começar o mais significativo é acordar o tempo que vamos estar em estúdio, porque todos vivemos em lugares diferentes no mundo. O Chris e eu vivemos na Austrália e o Tony mora em Berlim. Por isso esta questão é bastante importante. Depois quando temos uma ideia enviamos um email para todos e pensamos sobre isso. Quando estamos em estúdio discutimo-la, experimentamos e poderemos usá-la ou não. Numa fase posterior passamos vários dias a improvisar sozinhos ou em conjunto e gradualmente as coisas começam a tomar forma. Quando a gravação está pronta começa uma coisa fantástica: a mistura que fazemos, que esculpimos… e isso pode levar seis meses ou mesmo um ano.

EG – Estiveram duas vezes em Lisboa – no Teatro Maria Matos e na Gulbenkian. Foi uma boa experiência?

TB – Sim, também fomos ao Porto tocar num teatro muito antigo. Incrível. Após 30 anos é difícil lembrarmo-nos de todos os nomes, foi por isso que, a partir de meados dos anos 90, começámos a gravar os concertos, e a escrever o local e a data, para podermos depois fazer uma consulta.

EG – E o vosso novo álbum, Unfold?

TB – Quando gravámos Vertigo começámos a improvisar peças, peças curtas, como as que fazemos nos concertos, mais ou menos com uma duração de vinte minutos. Para gravar o Unfold fizemo-lo todas as manhãs durante onze dias como se fosse uma atuação ao vivo, mas em estúdio, por isso foi muito bem gravado e tivemos um grande controlo. Alguns de nós tocaram órgão ou percussão, mas foi só isso e não houve pós-edição ou cortes à semelhança do que se faz numa gravação em estúdio. Por isso é um disco que representa a forma como atuamos ao vivo restringido a um LP de vinte minutos. Mas sim, é uma perspetiva interessante entre a banda ao vivo e em estúdio. Basicamente tentámos efectuar uma aproximação a ambas as vertentes e foi este o resultado. Não conseguíamos escolher entre as quarto peças por isso acabámos por fazer um álbum duplo. Penso que o casamento entre os dois é muito bonito.

EG – Estou ansiosa por comprá-lo.

LA – É difícil porque é um LP duplo e nós estamos na Austrália. Foi uma edição especial portanto não editámos muitos. Mas pode obtê-lo em formato digital.

EG – Qual é a próxima etapa da vossa digressão?

TB – Inglaterra, depois Escandinávia, Polónia e Ucrânia.

Ver também: MADEIRADig 2017

Nasceu em 1976 e é jornalista desde 1994. Fez diversos cursos de Jornalismo no CENJOR (Centro Protocolar de Formação Profissional para Jornalistas) e diversos cursos no âmbito da arte contemporânea, sendo o último a Pós Graduação em Curadoria na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. É membro fundador e directora da revista Umbigo com a qual desenvolveu um projecto de curadoria. Júri e curadora da exposição de Joalharia Contemporânea "On the Other Hand", comemorativa do 5.º aniversário da PIN (Associação Portuguesa de Joalharia Contemporânea). Ainda para a revista Umbigo fez a edição do livro "Coordenadas do Corpo na Arte Contemporânea", numa recolha que reúne uma série de trabalhos artísticos sendo que muitos deles foram desenvolvidos propositadamente para o mesmo; num conjunto de obras que representam uma pequena amostra das preocupações filosóficas e estéticas de um conjunto de artistas.

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