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Maja S. K. Ratkje @ MADEIRADiG

A Rapariga no Laboratório

Maja veio da Noruega para atuar no MADEIRADiG. É uma ótima compositora e cantora contemporânea que já trabalhou com nomes com Zeena Parkins (que tocou na última edição) ou Ikue Mori. Para além de parecer muito focada no seu laboratório de música, Maja diverte-se imenso nos seus concertos, saltando entre diferentes estados e conotações. Emocionalmente ela não salta de estado para estado, apenas se foca em fazer sons e cada concerto é único.

Elsa Garcia – Alguém me disse que ficas muito nervosa antes de atuares.

Maya Ratkje – Porque a coisa mais importante para mim enquanto artista é ter o meu trabalho exposto perante uma audiência… e pretendo partilhar o que posso fazer dando o meu melhor. Iremos mais longe como seres humanos se explorarmos a nossa arte. Exijo tanto de mim própria que estar numa situação dessas me deixa muito nervosa. Existe muita coisa em causa. E penso que é por isso que quero ser música, porque quero estar lá. E não há outra hipótese: tens de estar à altura das expetativas. Sei disso porque tenho formação como compositora clássica e escrevi peças para orquestra e cordas. Sei como é confortável escrever música longe do “agora”. Mas, mesmo assim, preciso de estar no “agora”, sentir a tensão que sinto nos concertos porque me impulsiona e dá-me energia para fazer música quando estou sentada no meu estúdio, sempre que preciso terminar algo. Penso também que o facto de atuar ao vivo me dá mais experiência como compositora. É de facto uma grande vantagem porque me dá um novo ângulo na abordagem da composição. Quando escrevo para outros músicos estou-lhes a passar essa responsabilidade. E é um sentimento realmente diferente tocar música em tempo real em comparação com o que sentes quando estás à secretária em casa e podes parar para almoçar. Está a ser muito difícil porque estou a tornar as coisas muito mais complicadas para mim. Faço coisas diferentes todos os dias e vejo o que acontece. Por vezes começo uma composição e não faço a mínima ideia de como sair dela.

EG – Quando estás em palco sentimos-te a adorar o que estás a fazer…

MR – Achas que pareço estar a divertir-me? Porque as pessoas dizem-me que estou sempre muito séria, mas estou concentrada porque é muito difícil.

EG – Reparei que pareces estar num laboratório, a fazer a tua música num misto entre divertida e focada.

MR – Boa observação… porque percebes que estou a divertir-me. E de facto amo a música, adoro o desafio, e adoro quando tudo está em causa. Por isso quando atuo sozinha sou completamente livre, improviso, não tenho qualquer plano e toco do nada …

EG – Tudo é improvisado. Então os teus concertos são todos únicos?

MR – Sim, completamente. Mas o contexto é a escolha da instrumentação, por isso se me colocares num concerto a solo nunca terás a mesma coisa porque estou a usar a voz e outros apetrechos.

EG – Estás completamente concentrada… como um cientista louco a criar algo grande.

MR – É uma questão de foco porque é super exigente e estou a realizar diversas tarefas ao mesmo tempo, Obrigada por teres reparado. As pessoas não estão habituadas a esta música.

António Néu – Penso que parece caótica mas ao mesmo tempo emocional e faz todo o sentido… os sons fazem sentido.

EG – Existem oscilações entre um som agressivo e uma canção de embalar.

MR – Mas isso acontece porque quero que a música reflita todos os aspetos de se ser humano… e não deverias apenas dar um murro na cara de alguém, mas também não podes estar sempre a acalmar e a ser agradável com as pessoas. Quero usar todo o registo de expressões. Dá-me imenso gozo fazê-lo, saltar entre diferentes estados e conotações porque emocionalmente não mudo de estado para estado, estou apenas focada em fazer o som. Não passo de zangada a triste, ou contente. Estou totalmente focada no som. E como estou a usar a minha voz a emoção pode ser ouvida, é imediata. Uso a expressão da voz para comover as pessoas, mas não como um ator que controla emocionalmente. O som vem primeiro e depois a emoção.

EG – Foi impressionante, em termos de imagem e de som o que fizeste com o plástico, o celofane. Uma mistura de som e imagem.

MR – Uso isso sempre. É um som fantástico e estava a trabalhar a luz nesse celofane. Por vezes colaboro com artistas visuais de topo que têm a capacidade de comunicar de uma determinada forma. Faço isso com vários artistas.

EG – Estavas a dizer-me que a tua filha tem oito anos e já tocou contigo.

MR – Sim! Já tocou comigo duas vezes. A primeira vez foi em Londres, na Roundhouse. Era um festival enorme criado pela Imogen Heap, a cantora pop avant-garde e que também toca instrumentos eletrónicos, e havia uma multidão enorme. Eu estava lá com a minha filha mais velha que tinha apenas seis anos na altura. Estava escondida debaixo da minha mesa e estava bem, a brincar com o meu telefone e com proteções auriculares enormes. Foi maravilhoso observar a audiência. Quando toco estou normalmente muito concentrada no meu equipamento… mas nesse dia olhei e vi centenas de telefones porque ela estava a brincar com equipamentos que fazem barulho (coisas que estão realmente no sistema) e de facto ela toca música. Voltámos a tocar em Maio num festival enorme na China em Shenzhen, perto de Hong Kong. A maior parte das pessoas não sabe que esta cidade existe mas tem milhões de pessoas e convidam artistas internacionais. De facto não é preciso muito para quebrar o cenário convencional. Ser mulher é já uma forma de o quebrar… mas trazer crianças para o palco? Mexe de facto com a cabeça das pessoas porque se espera que estas coisas sejam muito sérias, e negras, e os homens vestem-se de preto… e depois tu és uma mulher, o que já é completamente fora do sistema, e ainda por cima trazes a tua filha! Até onde é que poderás ir? É divertido quebrar convenções. Adoro fazê-lo desde que comecei a fazer música.

EG – E qual é o teu processo de trabalho?

MR – É sempre um trabalho em curso. Desde que comecei a fazer música avant-garde, descobri que não podia viver a minha vida na música como uma artista comercial convencional. E nunca comprometo a minha forma de arte… julgo que a minha curiosidade é, em primeiro lugar, o que me move, a curiosidade e o desafio que lanço a mim própria acima de tudo. Quero fazer uma digressão que seja exigente. Preciso do desafio para poder crescer como artista. Por isso não quero estar muito confortável. O meu processo é encontrar novos caminhos, como pegar em algo muito familiar, um instrumento de brincar, o uso da voz ou da harmónica, e colocar tudo isso num novo contexto e ver o que acontece. Isso pode ser novo.

EG – Lês muito, vais a muitas exposições? Estou a perguntar isto por causa do resultado do que fazes.

MR – Penso que processamos tudo a que estamos expostos enquanto seres humanos. E por vezes faço deliberadamente pesquisas sobre alguma coisa e vejo coisas por acaso, ou através de pessoas que se vão conhecendo se se estiver aberto a ouvir, por exemplo. Adoro os acasos da vida.

EG – E posso ver que gostaste realmente de atuar no MADEIRADiG.

MR – Sim! Claro! Se és bem tratado no festival pelas pessoas que o organizam, e se te respeitam e fazem as coisas de forma correta para que toques no seu evento, claro que tocas muito melhor. Se queres que o artista tenha uma boa atuação, trata-o bem, sê amigável. Pergunta-lhes o que estão a fazer. Preocupa-te com eles. É tão fácil. Os artistas em geral são boas pessoas e merecem ser bem tratados. E assim irão dar o seu melhor. É por isso que é aterrador atuar neste festival. São todos super agradáveis e queres mesmo fazer a melhor atuação possível. E depois fica-se ainda mais nervoso…

Ver também: MADEIRADig 2017

Nasceu em 1976 e é jornalista desde 1994. Fez diversos cursos de Jornalismo no CENJOR (Centro Protocolar de Formação Profissional para Jornalistas) e diversos cursos no âmbito da arte contemporânea, sendo o último a Pós Graduação em Curadoria na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. É membro fundador e directora da revista Umbigo com a qual desenvolveu um projecto de curadoria. Júri e curadora da exposição de Joalharia Contemporânea "On the Other Hand", comemorativa do 5.º aniversário da PIN (Associação Portuguesa de Joalharia Contemporânea). Ainda para a revista Umbigo fez a edição do livro "Coordenadas do Corpo na Arte Contemporânea", numa recolha que reúne uma série de trabalhos artísticos sendo que muitos deles foram desenvolvidos propositadamente para o mesmo; num conjunto de obras que representam uma pequena amostra das preocupações filosóficas e estéticas de um conjunto de artistas.

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