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Spaces no Chiado 8

Espaços de criação | Manchas de criação

Capturar o processo criativo é tarefa árdua se não mesmo inglória. É o mesmo que dizer que se pretende reter algo invisível, indizível, apenas intuído por alguns. É uma força contínua que se mostra, justamente, num continuum e que se mede nos restos produzidos que ascendem, por vezes, a valores incomensuráveis. É luz, é trabalho, é uma equação dinâmica de componentes infinitas.

Ter o privilégio de aceder ao ato laboral do artista deverá ser algo mágico, mas também deverá constituir um momento de violação para alguns. O artifício – técnica primeira do artista – é melhor quando mantido em segredo: expande o mistério e acrescenta qualidade. E o espaço, contentor de tais segredos, é lugar sagrado e deve ser interpretado e respeitado como tal. Mais ainda: o estúdio, o gabinete, é invólucro idiossincrático, isto é, obedece às particularidades de quem o habita e do trabalho que lá elabora. Dito isto, a revelação destas matérias só pode constituir, então, ambivalência.

Spaces procura captar através da fotografia o artista no seu espaço de trabalho, ciente, contudo, da dificuldade dessa tarefa. O gesto artístico desdobra-se na mancha disforme da longa exposição que o fotógrafo, Rodrigo Bettencourt da Câmara, considera melhor representar o momento criador. Diz o autor: “este momento, estes gestos, não têm idade, nem mesmo forma precisa; mas têm ambiente, energia, luz, e parecem nunca acabar. Como se o artista estivesse a vida inteira a fazer o mesmo, com resultados diferentes”.

Mas a fotografia acrescenta uma nova dimensão: a imortalização que sucede ao registo vagamente documental. Retratar o ato do artista é conferir-lhe uma certa perenidade e, assim, deificar a complexidade do processo.

Os rostos e os corpos não são percetíveis, mas os movimentos adivinham-se na imaginação do observador, mediante um quase exercício de arqueologia motora. Diante dos olhos temos uma demorada performance que oscila entre indecisões, silêncios, ação, repouso e mera contemplação – uma ópera de composições, ritmos, tempos, andamentos que se juntam numa superfície plana sem que isso a simplifique, antes pelo contrário.

De facto, a contemporaneidade trouxe um novo modo de encarar e trabalhar a arte e tem vindo a sublinhar, precisamente, o espaço de performance que é o atelier. Espaço esse que pode perfeitamente assumir contornos sociais e comunitários, de práticas híbridas e de partilha. Aí o silêncio já não é tão importante, mas o ruído caótico e criador que é gerado mediante permutas várias que podem, inclusive, potenciar a experimentação e a informalidade.

Nesta perspetiva não parece que Bettencourt da Câmara tenha revelado o que quer que seja. Não há nenhuma reificação, coisificação, do que constitui o processo criativo. O que nos dá a ver é antes um registo abstrato que acrescenta enigma e indefinição. Como refere um dos autores dos textos auxiliares, Miguel Sayada, a câmara regista “eus em renovação” – nada mais esfíngico e sintetizador de toda a poética do artista a acontecer.

Spaces é uma recoleção de vários anos de visitas a ateliers de artistas com repertórios muito diversificados e amplos, em vários cantos do mundo. Nesta exposição, temos acesso à privacidade da arte de vários artistas portugueses, brasileiros, moçambicanos, angolanos, franceses, espanhóis, austríacos e espanhóis, numa mostra que vai da tecnologia analógica à digital e, assim, e curiosamente, documentar a própria evolução da mais moderna das técnicas.

A não perder Spaces, uma exposição de Rodrigo Bettencourt da Câmara, comissariada por Pedro Cabral Santo, com textos de Miguel Sayada e Miriam Tavares. Para visitar no espaço Chiado 8 até 15 de fevereiro de 2018.

José Rui Pardal Pina (n. 1988) cresceu em Campo Maior e estudou no agrupamento de Artes em Elvas. Obteve o grau de mestre em arquitetura pelo I.S.T. em 2012. Terminou o estágio de admissão à ordem e o estágio profissional no atelier António Barreiros Ferreira – Tetractys Arquitectos. Em 2016 ingressou na Pós-graduação em Curadoria de Arte na FCSH-UNL e começou a colaborar na revista Umbigo. Interessa-se por arte, cinema, política, literatura, moda, arquitetura, decoração…

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