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Living In – Patrick Depaus

“O mundo continua a ser uma maravilhosa inspiração”, Patrick Depaus.

A Bélgica é a sua terra natal, de onde partiu para descobrir o mundo. Patrick Depaus é um dos melhores cabeleireiros de Portugal, país que adotou há 34 anos, para viver e trabalhar. Abriu o primeiro salão no Estoril  e ao final de mais de uma década decide abrir um outro salão, bem no centro de Lisboa, numa das zonas mais ‘in’, a Avenida da Liberdade – 245. Um espaço decorado com simplicidade, bem ao estilo belga, aberto de terça-feira a sábado, onde o riso e a boa disposição são requisitos… obrigatórios!

Ao entrar, vai notar que, todas as clientes cumprimentam a equipa de Patrick Depaus com três beijos. Um ritual enraizado e que ninguém estranha, somente as recém chegadas, que rapidamente se habituam.

A clientela é maioritariamente feminina, mas muitos homens, de diferentes aéreas profissionais, ocupam diariamente as cadeiras de couro branco deste espaço de beleza capilar, que tem como donos Patrick Depaus e Fernando Marques. “Vim para Portugal em 1983 e a verdade é que foi um pouco por acaso, quase que ao ‘engano’. Tinha definido que não ficaria mais do que um ano e se já passaram quase 34 anos”, admite este profissional, que criou ao longo destas três décadas um nome e uma forma de trabalhar, a que poucos ficam indiferentes. “Odeio pessoas consensuais. Sei que não agrado a todos e que agrado a muitos. Penso que essa é a melhor forma de se estar na vida. Tenho uma forma de trabalhar, que é a minha; tenho uma forma de me exprimir, que é a minha; tenho o meu espaço, que é o meu; tenho uma equipa fantástica…O que preciso de mais!!!”, explica com o seu tom de voz melado, como um ligeiro sotaque, e de olhar sempre atento ao que se passa em seu redor.

Patrick gosta de viajar, gosta de ter tempo para usufruir do tempo, gosta de conversar e gosta de comer. Entre todos estes gostos, tem uma paixão por moda, pela imagem e está sempre a par sobre o que se passa dentro e fora do pais, nesta área. “Estar informado é fulcral. Sou curioso em relação à vida, aos acontecimentos políticos, económicos, culturais e de moda. Tudo o que envolve beleza, cosmética, vestuário e acessórios, eu quero saber”, salienta, reforçando o facto de ser um apaixonado pela profissão que escolheu, pelo puro prazer de dar alegria a quem se senta na sua cadeira. Tem pena “de haver muito pouca auto-estima em Portugal, ponto em comum com os belgas. As pessoas só se lembram do bom de cada lugar quando estão fora dele! Uma insatisfação crónica e dolorosa! Ambos, os países, estão ladeados por gigantes do ‘ego’! Não é fácil viver com fantasmas do passado… no presente!”, explica Patrick Depaus, que reforça o recorrente “queixume” de quem entra no seu salão, como “o turismo a mais; o trânsito demorado; a falta de chuva.  Inexplicável! E de curta visão!”.

Quando chegou a Portugal, o país tinha lacunas grandes nos serviços, nos museus, na cultura, no comércio, hoje, como salienta, “temos tudo” e não “sabemos aproveitar”. Gostava de ver maior abertura para as novas correntes de moda, arte, lifestyle e de ver uma maior atitude na personalização de gostos, pois quando surge uma nova “moda” todos a seguem sem questionar, com ausência de unicidade. “Era tão bom que os portugueses tivessem menos medo de serem audazes e de saírem da sua zona de conforto”.

O seu olhar de esteta, aprecia as mudanças no homem português, nos últimos 15 anos, na década de 1990, com o movimento “metrossexual”, quando perceberam que se podiam cuidar, sem interferir com a sua masculinidade. “Como cliente, o homem, está muito informado e, normalmente, sabe o que quer, quer seja no corte de cabelo, barba, roupa, ginásio ou estética. Vivemos tempos em que todo o tipo de cuidados ou qualquer manifestação de vaidade, é aceite pela sociedade e sobretudo pelos ‘pares’!” O resultado desta mudança é positivo, como o próprio frisa, havendo sempre a possibilidade de se cair num excesso, pois os homens continuam a ter receio de “dar nas vistas”.

O seu tempo livre é repartido entre a praia, a leitura, os passeios de bicicleta, sendo a sua elétrica, andar a pé, fazer compras e usufruir do recanto, que é a sua casa. O amor também o descobriu em Lisboa, motivo que o trouxe até esta cidade romântica e de onde nunca mais partiu. Curioso por natureza, Patrick Depaus gosta de descobrir novos espaços de lazer, gastronomia ou de cultura. “Lisboa é como uma caixinha de surpresas. Temos de a descobrir!” Reconhece que os portugueses têm evoluído muito na relação com a moda, ainda tendo um percurso a fazer sobre o que de mais interessante de faz em Portugal, principalmente sobre o que lhes fica realmente bem e o que os amigos dizem que lhes fica bem. “Quem sou eu para opinar, mas por vezes os resultados são assustadores. Espero que em pouco tempo, as pessoas, homens e mulheres, entendam a diferença entre o que as tendências ditam e como as devem interpretar. A falta de gosto resulta sempre nas mesmas coisas: sabrinas, ‘leggings’, cores estranhas para o nosso tipo de pele, como é o caso do bege, castanho, tons pastel, padrões estranhos e pouco coerentes com a silhueta. O problema passa, muitas vezes, pelo clichê!”.

Em relação ao cabelo, a sua especialidade, reside a dificuldade em sugerir a mudança, em experimentar alguma coisa nova. “De nada serve o aconselhamento e mudar ‘o boneco’, se não fizermos uma análise do que realmente nos fica bem e, se essa mudança, nos faz sentir confortáveis. Uma sensação ‘like a million dollar’!”, aconselha o profissional, pois o importante é que a nossa imagem “reflicta a essência de cada um e para tal é necessário conhecermo-nos bem”. Observador nato, procura em tudo e em todos um sentido e uma estética, pois o “mundo continua a ser uma maravilhosa inspiração!”

Catarina Vasques Rito

Licenciatura Jornalismo. Doutoramento em Design de Moda, UBI, Covilhã. Jornalista especialista em moda. Entrevistou alguns do melhores designers de moda nacionais e internacionais. Formadora e professora na área da comunicação / jornalismo / consultoria imagem / luxo. Colabora com publicações nacionais e internacionais.