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Frases e pensamentos soltos de Carmen Escudero

Tiphaigne de la Roche prenunciava em 1760 uma forma de “fixar imagens fugidias (…) com a qual um quadro se fazia num abrir e fechar de olhos”, ainda Talbot, Daguerre e Herschel não tinham iniciado as suas experiências e descobertas revolucionárias que estiveram na origem da fotografia. Mas o pequeno texto Giphantie, A Tempestade do autor acima citado era já um desvelamento antecipado do espanto impressionante da tecnologia fotográfica. De la Roche relatava o pasmo de ver uma janela de tal forma real que o induzia numa atmosfera visual oceânica no meio de África. O assombro de tal técnica e da história da fotografia e da arte fotográfica estão aqui presentes.

As obras de Carmen Escudero Rubi são autênticas janelas de paisagens que remetem imediatamente para a obra de Tiphaigne de la Roche. A imensidão captada do real lembra toda uma evolução científica que se tornaria no achado mais surpreendente e omnipresente da modernidade e da contemporaneidade e que, não obstante a obsessiva e matemática procura pelo rigor físico e químico, esta é uma história e um suporte de emocional desmedida. A fotografia como pintura real, a fotografia como exercício de busca, de arquivo, de rememoração, de abstração, a fotografia como paisagem natural e íntima, como motivo de introspeção e libertação criativa são matérias que podem ser vistas na obra desta fotógrafa e psicanalista catalã, em exposição na galeria do hotel Le Consulat, numa mostra com o título Silêncio, vales e ecos a que se junta outro fotógrafo, Miquel Llonch.

José Pardal Pina – A primeira imagem que me vem à memória, depois de visitar a exposição, curiosamente, não é tanto a paisagem, mas a água ou os fenómenos aquáticos como o reflexo. As imagens induzem-nos na componente líquida da natureza. Ora esta qualidade líquida tem sido muito explorada por artistas, escritores e filósofos ao longo do tempo (o mais recente será, talvez, Zygmunt Bauman), sobretudo a liquefação das coisas, a qualidade de tornar líquidos os objetos. Isto pressupõe, portanto, a utilização de líquido como adjetivo ou característica de algo, talvez por ser um elemento psicológico muito forte. É este um dos motivos da exposição, ou os meus olhos extravasaram para lá do que era suposto?

Carmen Escudero – A liquefação das coisas… Sempre me impressionou a água e o jogo de reflexos que oferece o aleatório encontro de elementos, recortes da realidade que formam um todo em si mesmos, vazios de elementos figurativos e representativos. O real e o simbólico perdem definição. Imagens abstratas utilizam a água como tela. Persigo um encontro mágico no aqui e agora, uma imagem recortada e roubada ao acaso do momento e que chega à câmara completa, evidenciando múltiplas possibilidades. A perceção não é uma mera repetição do mundo exterior. A fotografia tão-pouco. Um mesmo fenómeno é compreendido de formas diferentes e interpretado de modos distintos e surge uma forma na qual se pode expressar o consciente e o inconsciente. Em Paisajes Imaginarios persigo um jogo percetivo no qual o macro e o micro se confundem momentaneamente.

JPP – Outro aspeto que me saltou aos sentidos e à mente foi a particularidade feminina das obras. Não feminista, contudo. Mesmo nos retratos de mulheres africanas, não me pareceu que fossem obras feministas. Há uma atenção à atmosfera pacífica, quase maternal, da água e dos rostos. A água geralmente é um elemento muito associado à mulher e aos fluidos uterinos e, por esta via, ao lado ctónico da natureza e da mulher. A visão feminina das coisas e do mundo, focada pela lente da máquina fotográfica, tem sido uma prática consciente no seu percurso de artista?

CE –Não sou consciente dessa particularidade feminina nas minhas obras, mas sem dúvida que qualquer expressão artística fala da nossa identidade. Desde um rabisco, a uma palavra, a um simples gesto corporal. O nosso define-nos em si. É o que chamamos de identidade, o processo para nos reconhecermos naquilo que fazemos. A fotografia não é alheia a esta ideia. O simples feito de por que motivo elegemos uma realidade através do viso da nossa câmara, entre infinitas possibilidades, situa-nos na nossa verdade como criadores. Talvez o meu lado feminino mais instintivo e inconsciente tente conferir beleza ao mundo desde o seu lado mais amável ao mais grotesco. Interessei-me em explorar outros campos: fotografias mais documentais, narrar histórias, imagens que são produto de uma intenção, narração ou esquema prévio e que partem de encontros, descobertas ou momentos que me provocam como o meu trabalho Fandema em África ou o último We women para uma companhia de dança. Penso também que nesses processos mais construídos mentalmente, ou mais intencionalmente, aparece a minha implicação emocional e menos consciente no processo.

JPP – O silêncio e a introspeção são, de facto, evidentes nas fotografias. Algo que vem pela imensidão das paisagens, a lonjura, o espetacular confronto entre céu e terra que nos deixa siderados pela magnificiência da natureza. A Carmen é psicóloga de profissão. Essa formação foi indispensável para a sua “carreira” de fotógrafa? Existe isso de captar um estado mental ou psíquico através da foto, ou é tudo uma encenação de luz e espaço?

CE –Trabalho de forma intuitiva e muitas vezes não sei de onde vêm as minhas obsessões. O quotidiano e o banal são sempre postos em cena talvez para demonstrar a frágil linha entre realidade e irrealidade.

Gosto do enigmático, capturar o que permanece habitualmente escondido, aquilo que com a visão saturada do dia-a-dia não somos capazes de perceber.

No meu processo pessoal, e coincidente com a minha formação como psicoterapeuta, a fotografia é parte de uma espécie de purga. É como a minha terapia de vida. No meu trabalho enquanto coach e psicoterapeuta cultivo a abordagem gestáltica baseada na presença e na consciência das próprias experiências e acredito que talvez essa mesma abordagem me acompanhe no meu processo criativo. Todo ele como marca do presente, do aqui e agora, que (como não?) contém sempre o passado. Quando tiro fotografias e consigo fluir-me nesse processo, sinto-me plena. E além do mais, quando me sinto identificada com o que expresso, quando o consigo, é quando sei que essa fotografia fica concluída e completa. Em qualquer dos casos, na introspeção e criação, atravessei momentos de fluidez e expansão e também pude atravessar as sombras e o medo. Em ambos os casos vivi de igual modo momentos de algo que posso chamar de “vazio fértil”.

JPP – A fotografia sofreu uma grande revolução com a chegada do digital. A luz pode ser manipulada, a cor, tudo pode ser retocado quase ad infinitum ao ponto de o que se fotografou, o referencial, se tornar outra coisa totalmente diferente. A Carmen fotografa com o analógico ou com o digital? Há quem diga que o digital é para preguiçosos!

CE –Eu sou filha do mundo analógico. Essas são as minhas raízes. Tive câmaras de grande formato e trabalhei inclusive com câmaras de placa. Passei muitas horas no meu laboratório branco e preto com luzes infravermelhas e não menosprezo toda a mística e o glamour que isso evoca, esse momento no qual podias ver a tempo real como aparecia a imagem. Era algo mágico. Fui das que se opôs e enchi de preconceitos quanto ao digital. É um tema recorrente em mim, reconheço uma certa melancolia que me visita por vezes e que a desafio dizendo-me que isso, a tecnologia, não é importante senão como a utilizas e a serviço do quê. Estamos numa era digital e as facilidades que o digital oferece não são depreciáveis. Para mim é mais importante a atitude, o dar valor ao tempo, em não perseguir o fácil, o óbvio… Nesse sentido, talvez sinto falta do ritual do disparo que antes se prestava não só no analógico como no grande formato.

Atualmente, tanto para obrigações do mercado como para o meu trabalho pessoal, uso o formato digital há mais de dez anos e vou encontrando formas diferentes com que processar a imagem. Cada história tem uma linguagem e uma maneira de ser construída. A câmara e as edições são importantes para conseguir dar forma a essa linguagem. Não conheço nem utilizei processos de edição com Photoshop. Utilizo apenas ferramentas digitais que emulam o trabalho que antigamente se fazia em laboratório: contraste, brilho…

JPP – Uma última pergunta. Desta vez de caráter político. A Catalunha tem passado momentos de grande agitação social e política, nos últimos meses. Enquanto artista e cidadã espanhola, catalã, europeia, qual é a posição da Carmen relativamente à independência da Catalunha? Como vê o futuro da região, sendo que as artes e a cultura serão invariavelmente afetados?

CE –Respondo a esta pergunta desde o meu escritório, em minha casa. Vivo no centro de Barcelona e hoje, como já vem sendo habitual, sobrevoa um helicóptero da polícia deixando pela sua passagem um ruido ensurdecedor. Isso, o ruido, posso reconhecê-lo. O que talvez não reconheço é como esta tensão, este ruido constante e aterrador se está a colar ao nosso estado emocional. Estamos a viver momentos dramáticos e muito tristes na Catalunha e em Espanha. Há dois atores principais: os dos governos que não estão a saber encontrar as condições mínimas para fazer política através do diálogo. A minha postura particular a esta matéria é nem DUI (declaração unilateral de independência) nem o artigo 155 que obviamente em nenhuma medida vai servir para acalmar a tensão. Eu interpelo ao diálogo. Fazer política. Mas sinceramente tenho já pouca esperança no que se possa encontrar de saída nos poucos dias que restam. Temos à nossa frente um conflito histórico que necessita de sossego, elevação e sobretudo conhecer o outro. O que parece existir constantemente é sobressalto e reação.

Do ponto de vista pessoal, sou uma pessoa de matizes e muito afastada de sentimentos nacionalistas. E o que estamos a viver agora é uma situação na qual parece não caber os matizes, só os nacionalismos e as bandeiras. Creio que só um referendo acordado e legítimo pode salvar a situação e dar resposta ao que clama a maior parte dos cidadãos. Como está a afetar e como afetará a cultura e a arte, isso é algo que só amanhã poderemos ver.

Silêncio, vales e ecos  de Carmen Escudero para ver até 19 de novembro no hotel Le Consulat.

José Pardal Pina

José Rui Pardal Pina (n. 1988) cresceu em Campo Maior e estudou no agrupamento de Artes em Elvas. Obteve o grau de mestre em arquitetura pelo I.S.T. em 2012. Terminou o estágio de admissão à ordem e o estágio profissional no atelier António Barreiros Ferreira – Tetractys Arquitectos. Em 2016 ingressou na Pós-graduação em Curadoria de Arte na FCSH-UNL e começou a colaborar na revista Umbigo. Interessa-se por arte, cinema, política, literatura, moda, arquitetura, decoração…