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Swans – Batismo de Fogo

Já ouviu falar do voo de Ícaro?

Por algum motivo que me escapa, durante a mais recente atuação dos SWANS em Lisboa, pensei sistematicamente sobre Ícaro e o quão difícil deverá ser aprender a controlar os nossos impulsos a fim de alcançarmos a tarefa que temos em mãos. Talvez esta analogia tenha algo que ver com a reverberação do som no corpo ou simplesmente com os movimentos proferidos por Gira enquanto no palco conduz os seus companheiros de banda. Seja como for, será difícil esquecer este concerto e o furacão sonoro que continuou a rodopiar durante duas horas e meia de improvisação e descargas ruidosas.

É impossível negar que as estruturas sonoras hipnóticas dos SWANS cresceram para alcançar plena maturidade na última década e, em relação a esta formação em específico, é possível constatar que se estão literalmente a dissolver em palco e na vida real. Aquilo que é possível escutar dos SWANS em palco nos dias que correm tem muito pouco que ver com aquilo que factualmente se apresenta nos discos e isso é simultaneamente desorientador, imprevisível e entusiasmante. Tendo por base a reação de algumas pessoas na plateia, talvez seja um pouco esmagador demais mas, à semelhança de qualquer arte condigna é preciso desafiar o ouvinte rumo ao desconhecido, deixando-o por lá perdido à caça de respostas e terra firme.

Pessoalmente, escuto SWANS há mais de 15 anos, portanto estar finalmente com Michael Gira – que foi do mais cordial e amigável possível apesar do seu aspeto cansado – e poder conversar com ele antes de subir a palco foi indubitavelmente um enorme prazer.

Nuno Moreira – Michael, não é a tua primeira vez em Portugal, qual é a imagem geral que tens deste país?    

Michael Gira – A primeira vez que vim aqui foi para ler um livro que escrevi num festival de spoken word, e isso deverá ter sido em 2003. Foi interessante reparar na economia relativamente reduzida da época e, depois, observar o crescimento de Portugal, tornando-se mais consumista (infelizmente), mas próspero, e depois o crash aconteceu… Extremamente desapontante. Eu gosto do país, obviamente. As pessoas são simpáticas e a comida é boa…

NM – Enquanto me preparava para a entrevista de hoje li que, enquanto jovem, costumavas viver com o teu pai na Europa, isso é verdade?

MG – Sim. Foi em 1968, acho. O meu pai tinha-me tirado da Califórnia pois eu era um jovem delinquente e a minha mãe não me conseguia controlar, e portanto a polícia disse que ele tinha de voltar para me vir buscar. Estavam divorciados. Então voltou e levou-me primeiro para o sul do Indiana, onde estava a construir uma fábrica para uma grande empresa. Era um homem de negócios. E depois arranjou um trabalho na Europa e levou-me com ele, e eu depois fugi várias vezes e, ah, acabei a trabalhar numa fábrica na Alemanha durante um ano, pois já tinha fugido antes… É uma histórica complicada. Fui preso em Amesterdão e por fim ele lá me apanhou, dando-me um ultimato, ou iria para uma escola dispendiosa nos Alpes suíços – que ele conseguiria arranjar através da empresa – ou trabalharia na fábrica. E eu escolhi a fábrica (risos). Fiz isso durante cerca de um ano, trabalhando na Alemanha, e ele depois disse: “agora vais para a escola, és meu filho e não vais trabalhar numa fábrica”. Então fugi novamente e andei à boleia pela Europa até à Grécia e cruzando a Turquia. Andava com uns hippies mais velhos, isto em 1969, e chegámos a Israel. Passei um ano em Israel como um vagabundo, fui preso por vender haxixe e passei três meses numa prisão de lá, a trabalhar numas minas de cobre e, por fim, o meu pai descobriu-me através da Interpol e fui enviado de volta para a Califórnia.

NM – Que história! Fico a pensar se esses tempos foram um momento crucial na tua vida, talvez algo que tenhas experienciado acabou por ser decisivo, levando-te a compreender que querias ser músico e a expressar-te através da música.

MG – Bom, quando eu estava na prisão em Israel comecei a ler bastante. Não havia mais nada para fazer e foi aí a primeira vez em que li algo de forma verdadeiramente séria. Eles tinham uma boa biblioteca lá; os hippies da zona deixavam lá todos os seus livros… E isso levou-me a pensar sobre arte e literatura. Então, quando voltei para a Califórnia, fiz um ano no secundário e acabei por ir para a escola de arte e depois… Surgiu o punk rock! E foi aí que decidi que não queria ter uma carreira na arte – não que eu não fosse um artista – mas não gostava do mundo artístico. Para mim era demasiado elitista e desligado dos problemas urgentes que então assolavam a sociedade contemporânea, e que ainda hoje o fazem. Senti que o punk era uma resposta extrema muito mais imediata e foi aí que comecei a banda.

NM – As estruturas hipnóticas e mentalmente expansíveis são algo que poderá ser definido como caraterístico do som dos SWANS. Para mim, por vezes soa-me até como gospel. Um som que é empurrado para cima rumo a uma esfera mais elevada… Atualmente podemos ver nisto uma espécie de padrão musical dos SWANS, mas estiveste sempre consciente da construção deste tipo de som?  

MG – É um processo simultaneamente consciente e de descoberta com base nas atuações ao vivo. Estamos permanentemente a deixar-nos levar pela corrente, em constante mutação, e vemo-nos a perseguir aquilo que o caminho nos vai dando, rumo àquele momento de absoluta dissipação do eu. E quando este é o mais extremo e o mais ascendente – tal como referiste com o gospel – é quando me sinto atraído. É aquilo que sempre procurei na música rock, uma espécie de epifania de sons sobrepostos. Seguimos essa ideia e o material acumula-se ao longo da digressão, metamorfoseando-se lentamente.

Começamos com uma coisa e, no final, temos cinco coisas juntas e deixamos a primeira de lado. Todos os álbuns foram feitos assim desde o My Father Will Guide Me Up A Rope To The Sky – com exceção das pequenas canções que faço na guitarra acústica – todos foram feitos através de um processo de descoberta e trata-se somente de uma tentativa de estar no momento e alcançar uma espécie de lugar mais elevado. Para mim, a música, particularmente aquela feita por guitarras elétricas amplificadas, é bastante capaz de consegui-lo. Os sons podem ser tão absorventes, sabes? Portanto é disso que vamos atrás, sou atraído por uma forma budista de encarar a existência, mas não sou budista, jamais disse que o sou, mas os momentos em que o tempo é absoluto na música são para mim os mais satisfatórios.

NM – Tinha curiosidade em saber se estás consciente dessa linguagem SWANS enquanto compões.

MG – As palavras/letras, durante os últimos discos, têm tido uma dose de… (hesitação) – não quero dizer religião ou espiritualidade – é algo mais transcendente, que serve quase uma função oratória. E isso tem que ver com a leitura e com a experiência de vida.

Há dois temas nos últimos discos cuja inspiração provém do mesmo livro chamado The Cloud of Unknowing, escrito por um monge inglês do século XIII, ensinando aos acólitos a maneira correta de se unificarem com deus. Não é um catolicismo didático, mas sim a questão transcendental, tal como São João da Cruz terá escrito. Tem que ver com alcançar uma conexão com deus. Eles chamam-lhe deus, eu não sei se o faça.

NM – Aquilo que é tão fascinante nos SWANS nos últimos anos tem que ver precisamente com esta espécie de universo interno da banda, destes discos, destas atuações ao vivo; tudo se parece imensamente com um processo alquímico, de alguma forma.

MG – Existem um excelente livro do Aldous Huxley intitulado The Perennial Philosophy, que foi extremamente inspirador para mim há dois ou três anos, no qual ele, de forma bastante académica, mas também inquisidora, fala sobre as similitudes entre o misticismo cristão e o budismo, hinduísmo e até algum islamismo.

A aspiração parece ser a de absoluta dissolução… Hoje de manhã estava a ler o meu livro Zen sobre perder a dualidade da mente. Ser capaz de apreender o momento na sua plenitude é como se fosse a maneira perfeita de existir, sendo quase impossível.

NM – No que diz respeito à escrita e ao surgimento das letras, manténs um caderno contigo ou tens hábitos de escrita?

MG – Escrevo constantemente no computador, mas as palavras hoje em dia saem-me muito vagarosamente. Creio que se deve ao fato de, por tanto ter escrito, quando começo a escrever soa-me simplesmente a algo da minha autoria, e isso não é aceitável… Preciso de encontrar uma frase que ache verdadeira e construir a partir dela. Mas escrevo todos os dias no meu bloco e, com frequência, depois de ler um livro, arranjo uma frase que servirá de esteio para muitas outras coisas. E, claro, escrevo também com base em memórias e experiências, o truque na música é encontrar palavras que não a diminuam. É como falámos sobre o gospel, elas precisam de elevar a música e é muito complicado encontrar as frases certas que o façam.

NM – Isso faz-me pensar que alcançar essa sensação concreta de estar perdido entre o som deve ser algo bastante complicado de conseguir noite após noite.

MG – Claro que é. Mas tentamos! Este grupo tem tocado em conjunto há sete anos, portanto estamos muito focados no nosso pensamento e sensações. Sou sempre uma espécie de polícia a olhar para todos. Enquanto líder da banda, estou sempre a tentar puxar por toda a gente e por mim ao mesmo tempo.

NM – Então isso leva-me a crer que deverá ser também complicado conduzir um grupo de diferentes personalidades e, especificamente, tentar explicar por palavras aquilo que estão a tentar alcançar através do som, o que parece algo extremamente difícil de colocar por palavras, na verdade…

MG – Bom, acabamos por não falar do conteúdo mas sim da forma. Pois a forma é na verdade o conteúdo. Não podes simplesmente dizer: agora temos de nos dissolver. Tentas simplesmente fazer com que o som aconteça e isso fala por si só.

NM – Lembras-te dos tempos em que começaste a trabalhar com este grupo de músicos?

MG – Conheço estes tipos há décadas por isso foi fácil trabalhar com eles. Quando começámos ainda não estávamos totalmente formados, isso veio somente com os três discos seguintes. Foi só quando começámos a atuar ao vivo que percebemos o poder deste tipo de incrementação e improvisação que levamos a cabo, onde as coisas crescem lentamente durante a atuação e, depois, na atuação seguinte, falamos sobre o que aconteceu na noite anterior e de seguida levamos isso mais longe e, gradualmente, ao longo de um ano e meio de digressão, o material já evoluiu completamente para algo diferente e isso dá-nos um disco novo.

NM – É difícil para ti (enquanto artista) estares a fazer isto e, ao mesmo tempo, olhares para o futuro e para aquilo que queres fazer de seguida?

MG – Não estou a olhar para o futuro de momento pois não quero abstrair-me disto… Estou simplesmente a tentar acabar esta digressão da melhor forma que sei e depois, em novembro, quando acordar, começarei a trabalhar no que virá a seguir. Tenho alguns conceitos mas nada em específico.

NM – Existe alguma atividade que faças fora da música que contribua para a tua música?

Diria que na sua maioria é ler e ver filmes. E meditar. E amar a minha mulher – para ser educado. (risos).

NM – Está a ser feito um documentário sobre os SWANS (Where Does a Body End?). O que nos podes dizer sobre ele e qual o teu envolvimento?

MG – Tenho dado algum feedback ao Marco mas não quero ser o realizador do meu próprio documentário, por isso sugeri-lhe pessoas com quem ele pode falar. Já vi algo, parece-me aceitável mas não sei o que será… Fiz apenas uma série de entrevistas de três horas com um jornalista, sendo que o resto da banda e as outras pessoas que conhecem SWANS também o fizeram… Espero que não seja um típico documentário rock, vamos ver!

NM – Quanto ao lado estético da banda, em particular as capas, sempre fiquei admirado com o quão ecléticas e diferentes são.

MG – Na sua esmagadora maioria, os álbuns têm apenas um ícone na sua capa. Foi algo que decidi em 1982, utilizar somente ícones. É um sinal que indicaria aquilo que o disco é mas que também levantaria alguma confusão sobre ele, criando uma tensão. Não quero que a capa responda a questões, quero que ela suscite ainda mais perguntas, essas situações são sempre as melhores. O mais importante é a pergunta, sempre.

NM – Antes de entrares no palco, preparas-te de alguma forma, aqueces a voz?

MG – Sim, aqueço a minha voz mas não faço muito mais… Abraçamo-nos antes de tocar (risos).

NM – Antes de finalizarmos, existe algo mais que queiras revelar sobre o que se seguirá com os SWANS e contigo?

MG – Fazem-me muitas vezes essa pergunta atualmente, mas não tenho a certeza. Vejamos: quero que soe como uma sinfonia completa dentro de uma igreja no momento em que o som para. O momento depois da paragem é aquilo que pretendo alcançar enquanto som, mas não sei se conseguirei fazê-lo.

Nuno Moreira

Nuno Moreira nasceu em Lisboa e desenvolve atividade independente como diretor de arte e fotógrafo. Estudou cinema e especializou-se nas áreas de design editorial e pós-produção de imagem, com especial foco para design de livros e música. Trabalhou durante vários anos como designer e depois como formador nas áreas de Artes Gráficas, Design e Audiovisuais em diversas escolas de ensino e instituições. Colabora esporadicamente com a Umbigo desde 2005.