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Enfoco na FOCO: Pau Duro Coração Mole

Pau Duro Coração Mole, inaugurou no passado dia 4 de Outubro, na galeria FOCO, em Lisboa, com um coletivo de 4 artistas emergentes: Christophe dos Santos, João Gabriel, Rui Palma e Thomas Mendonça. Falam-nos de temas queer, cujas obras abordam e espelham diferentes questões, desde a sexualidade ao género.

Nas palavras do artista e curador da exposição, Thomas Mendonça, “esta exposição fala sobre sexo, amor, amor sem sexo e sexo sem amor. Fala de sensibilidade e de beleza. Fala de brutalidade, de força, de resistência, de militância”.

Quisemos saber mais sobre uma exposição que nos interpela com um título que tanto deve à promiscuidade quanto à efervescência ou relutância do amor. Uma mostra de arte que vinca e discursa temas que crepitam pelo mundo inteiro; que se aproximam de uma realidade e de um tempo que aparenta por vezes ser um território ímpar e exclusivo do campo artístico, que no entanto, tendem rasgar-nos a consciência e afincam o nosso discernimento no plano da razão.

Acima de tudo, quisemos descortinar aquilo que se esconde ou espreita por detrás da visão de um jovem artista e curador, que nos faz chegar uma exposição tão eloquente, que findou no passado dia 28 de Outubro. Falamos com Thomas Mendonça.

Marco d’Oliveira – Fala-nos da experiência que é ser artista e ao mesmo tempo curador.

Thomas Mendonça – Sou antes de tudo artista plástico. O papel de curador – que me parece estar quase sempre implícito – surge mais apenas como necessidade de estar em várias frentes ao mesmo tempo. Não adoro o título de curador, mas assumo-o parcialmente pois serve para especificar que a minha prestação não se limita à criação artística. E também não se limita à de artista-curador, passa também por produção, comunicação, etc. Neste caso, idealizei esta exposição e convidei este grupo de artistas/rapazes/amigos cujas obras preenchiam os requisitos para a ideia que foi ganhando cada vez mais forma na minha cabeça. Apresentei a proposta de exposição ao Benjamin Gonthier, galerista da FOCO que me aconselhou em certos pontos, e depois, com a ajuda desta linda equipa de artistas, fiz tudo para que a inauguração fosse uma festa bonita e cheia de gente.

MO – Qual é a importância e o contributo que queres salientar quando no ano de 2017 decides conduzir uma exposição sobre sexo, amor, amor sem sexo e sexo sem amor?

TM – Quero salientar que o amor e o sexo, embora apaixonados, nem sempre andam de mãos dadas. Parece-me relevante falar de sexo sem amor e de amor sem sexo, tanto quanto me parece relevante falar de sexo com amor e vice versa. Mais que relevante, parece-me natural. Acho que o sexo – tantas vezes disfarçado de amor – alimenta as mais variadas áreas da atividade social humana. Mas há uma triste tendência em castrar/reprimir/ignorar o sexo, marginalizando-o e fazendo do amor o mais lindo da classe. É ao mesmo tempo tão estúpida e fascinante a forma como fomos todos tão bem ensinados a depositar tanto no amor perfeitinho da monogamia. Isto tudo para dizer que falar acerca do nosso sexo, do nosso amor, do nosso amor sem sexo e do nosso sexo sem amor é natural, legítimo e – a meu ver – tão mais relevante do que falar acerca de conceitos como o movimento, o espaço ou o tempo. Falar da sua própria experiência – pessoal, biológica e humana – é o que me parece ser mais relevante.

MO – Sabemos que arte contemporânea pode ser presenciada e consumida de diferentes formas. De tantas, que às vezes parece-nos impossível pensar se a arte ainda nos consegue chocar, no sentido literal da palavra. Conta-nos qual é a tua posição, enquanto curador, acerca do impacto desta exposição.

TM – Bom, esta exposição partiu de uma súbita vontade de ouvir a “Boys” da Sabrina na inauguração de uma exposição Queer. Qui-la gay, festiva e consciente. Acho que a arte contemporânea não tem necessariamente de chocar, nem tão pouco de abalar. Acho que por vezes pode ser só simpática, ou mole e morna, ou sexy, ou banal. Por vezes os domingos são banais e (por vezes) fazem falta. Tentei não me preocupar demasiado com o impacto que a exposição teria, pois na verdade o seu impacto ultrapassa-nos (a mim e aos restantes artistas). O nosso papel consiste em ter/criar questões e acaba no momento em que abrimos as portas da galeria. A forma como essas mesmas questões são recepcionadas pode acrescentar tantas outras camadas à intenção inicial. A minha ambição nunca foi a de chocar, apenas a de ouvir a “Boys” da Sabrina na inauguração de uma exposição Queer.

MO – Falar de temas como a sexualidade, sociedade queer ou simplesmente dos prazeres viscerais da noite, requer um certo cuidado, visto estarmos perante tópicos que, atualmente, experienciam momentos fogosamente inquietantes. Certamente foi algo com que te debateste, enquanto artista e curador da exposição. Qual é a pertinência que empregas na génese destes temas?

TM – Os temas abordados nesta exposição são temas de facto recorrentes na arte. Esta exposição fala sobre eles, pronto. Acho que muitas vezes as coisas mais importantes passam-nos ao lado. Ambicionamos ser críticos, revolucionários, implacáveis e no fundo não somos nada disso. Estes temas têm o relevo que têm e a eu optei por dar-lhes mais ênfase neste momento. Para a próxima falarei de outro assunto. E é isso, no fundo o mais importante é fazermos o que queremos só porque sim. Não há tempo para guerras quando queremos ser grandes.

MO – Christophe dos Santos, João Gabriel, Rui Palma e tu próprio. 4 artistas emergentes, que certamente os mais atentos já ouviram falar. Vídeo, pintura, fotografia e escultura. O que nos conta o trabalho artístico desta reunião de artistas de pau duro e coração mole?

TM – Conta-vos o que nos vai na alma quando nos debatemos acerca do mundo queer. Conta-vos – no vídeo do Christophe – que é fundamental continuar a falar sobre estes assuntos quando em 2017 ainda existem campos de concentração para homossexuais na Chechénia. Conta-vos – através da pintura do João – quão erótica e soft pode ser a pornografia e quão bonitas são as relações de atração entre rapazes. Conta-vos – com as fotografias do Rui – que a canção do engate passeia-se até aos cantos mais escuros da subcultura gay, e quão poética e decadente é a beleza de uma ruína maquilhada. Conto-vos, através das minhas cerâmicas, que a genitália masculina também pode ser rosa, dourada e sagrada. Conta-vos, por fim, que com paus duros se luta e que corações moles nunca quebram.

Marco d'Oliveira

Marco d'Oliveira (1992), natural de Viseu e baseado em Lisboa, estudou design gráfico (2010), e licenciou-se em 2013 em História da Arte na FCSH. Frequenta uma pós-graduação em Curadoria de Arte e destaca, como um dos seus principais interesses, o panorama global da arte contemporânea.