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Casa Modesta – Entre o Contemporâneo e o Tradicional

“Toda a contemporaneidade nos nossos dias é a coexistência dos tempos: do princípio e do fim, um laço vivo – que só pode quebrar-se. Toda a contemporaneidade – a periferia (…) A Contemporaneidade é por si própria uma seleção. O autenticamente contemporâneo é aquilo que no tempo é eterno e, por conseguinte, além de ser testemunho de um certo tempo, é sempre oportuno e contemporâneo – de tudo.” O Poeta e o Tempo, Marina Tsvietaieva.

A noção que temos do tempo varia consoante vários fatores: a profissão, o ritmo com que vivemos ou a geografia em que nos encontramos. Neste Algarve a noção de tempo é substancialmente diferente e na Casa Modesta vivemos certamente um outro tempo. Não só um tempo de outros tempos, como um tempo desacelerado que torna a vida mais plena e aguça os sentidos. Os cheiros, os sabores e o aspeto visual criam uma junção perfeita entre o tradicional e o contemporâneo nesta casa modesta e elegante.

Pela manhã o cheiro da cidade substitui-se pelo cheiro doce da alfarroba e da romã num clima temperado e ameno que convida a um banho nas águas calmas da piscina azul esverdeado. Sallvador Mata D’El Rei – a mascote da Casa Modesta – ladra com vontade de se juntar ao banho, ao mesmo tempo que alerta para o almoço que está quase pronto. A letargia começa lentamente a apoderar-se do corpo que parece apenas estar atento aos pequenos detalhes desta antiga casa de família. No quarto, o design de Álbio Nascimento e Kathi Stertzig da The Home Project. Carlos Fernandes, um dos proprietários, e Nuno Lopes, o seu namorado, viram o trabalho pela primeira vez numa exposição patente no Guggenheim de Berlim e de imediato pensaram em convidá-los a criar várias peças para os quartos, parte delas em cortiça, como os candeeiros, o banquinho que se transforma em mesa-de-cabeceira – inspirado naquele que outrora Carlos fez na escola –, ou o comprido banco encostado à parede inspirado num protótipo feito pelo avô Modesto. A cortina em rede de pesca feita pela tia Manuela, abre-se lentamente e ao fundo o nosso olhar detém-se na paisagem da Ria Formosa.

Na verdade, o conceito inicial desta casa composta por nove quartos mantém-se desde a altura do avô Modesto, que gostava especialmente de conviver reunindo família, vizinhos e amigos. Na parede da receção uma exposição dos seus desenhos, entre eles um autorretrato, a avó Carminda, atualmente com 83 anos, a mãe Modesto e a prova da 4ª classe. A grafonola em cima do móvel revela o quanto o avô gostava de ouvir música, “desde o acordar até aos últimos raios de Sol”. Modesto foi pescador de alto mar, embora também pescasse na Ria Formosa. “As pessoas da zona vinham a esta casa vender o marisco no espaço onde hoje em dia fazemos os workshops. Era uma casa que juntava todos os vizinhos e a comunidade, uma ou duas vezes por dia, consoante as marés. Era a casa do povo durante umas horinhas”, disse Carlos entre risos. Na sala do pequeno-almoço a parede é decorada com os pratos da família, pertencentes à avó Carminda e ao avô Modesto, cujos pais construíram a casa no início dos anos 1940. Todo o projeto que envolve Carlos, a irmã Vânia (uma das arquitetas), a mãe, o pai Joaquim, a avó e o irmão Pedro Fernandes – fisioterapeuta da Yin-Motion que frequentemente faz tratamento de Spa aos clientes – foi pensado de forma a prestar uma homenagem ao avô. Carlos conta que “crescemos aqui, eu fui para Lisboa com 19 anos, a minha irmã com 12 e o meu irmão com 14. Digamos que este é o nosso paraíso perdido” ao qual Nuno Lopes se juntou recentemente. Nuno chegou com um avental sui generis concebido por Joana Rocha, uma designer amiga de Vânia que aproveitou os tecidos existentes na casa, entre eles os sacos das amêijoas para criar estes objetos únicos. Nuno ainda está a encontrar o seu lugar mas muito feliz com a decisão. “Abrandei o ritmo para passar a usufruir de uns dias mais pausados num estilo de vida completamente diferente. Digamos que não sinto falta da cidade, aqui o tempo é diferente, anda mais devagar e dá a sensação que o dia é mais comprido”.

As açoteias viradas para a ria trazem a vista para o interior da propriedade, aumentando a área com espaços de prazer privados, inerentes a cada unidade e prolongando-os para a ria, para o horizonte. Nesta zona as açoteias fazem parte do legado tradicional e antigamente tinham dois papéis muito importantes, a seca dos frutos e a observação do estado do mar. Parte destes frutos compõem o pequeno-almoço e integram a granola comentada pelo músico Jay Jay Johanson, que por lá pernoitou. O difícil é escolher nesta profusão de sabores da região. É um pequeno-almoço que atua num raio de 15Km: os iogurtes chegam de São Braz de Alportel, os queijos de uma fábrica em Olhão, as frutas vêm da horta e a granola é feita pela Guida. Assim, a mesa enche-se de cheiros e cores numa composição feita de maracujá, abacate, bolo de alfarroba, melancia, chá de erva príncipe, sumo de romã e diferentes pães adornados com deliciosas compotas. Sim, é verdade, voltando atrás, Jay Jay Johanson esteve alojado na Casa Modesta. Foi dar um concerto ao Teatro Municipal de Faro no âmbito da tournée dos 20 anos do seu álbum Whisky e apresentação do novo álbum Bury the Hatchet. Jay Jay falou da surpresa ao chegar à Casa Modesta, referindo que é um lugar ao qual terá que voltar e “ficar entre 10 a 15 dias. É o espaço perfeito para relaxar e começar um novo processo criativo”. Adorou a arquitetura e todos os pequenos detalhes, entre eles o já referido pequeno-almoço. “As frutas quando chegam à Suécia já não têm o mesmo aspeto ou sabor. Aqui sente-se a perfeição”. O músico falou também da inspiração que este espaço lhe desperta. Na verdade, apesar do glamour que todos sentem existir, quando está em digressão raramente tem tempo para se sentar. “É tudo em volta de sound-check, hotel e aeroporto. Mas quando vamos para novos países e novas cidades tentamos sempre ficar uns dias extra. Nunca havia explorado esta zona, mas está na minha lista, desperta-me a inspiração”.

Think Global Act Local

O reavivar da comunidade de Quatrim do Sul foi um dos aspetos primordiais presentes na construção deste alojamento de turismo rural, já vencedor de dois prémios, um deles o galardão Green Key pela Condé Nast Johansens Awards para o Melhor Hotel Ambiental da Europa Mediterrânea. Têm uma pequena ETAR, que lhes permite fazer uma reutilização da água, painéis solares que levam a um baixo consumo da eletricidade e os detergentes são todos biológicos. Até mesmo os sabonetes, deixados nos quartos – feitos à base de azeite e cera – “são reutilizados como amaciador para a roupa”, contou Carlos.

O segundo Prémio foi atribuído pelo júri da plataforma online norte-americana Architizer A+ que levou a família Modesto a viajar até Nova Iorque. Concebida pela PAr Plataforma de Arquitetura – composta por Joana Carmo Simões, Susana dos Santos Rodrigues e Vânia Brito Fernandes ­– o espaço foi idealizado a partir do conceito de casa chã. Assim, a arquitetura opera não só com a pré-existência como também com a vertente cultural da região. Uma das premissas foi a utilização de materiais naturais e provenientes da zona, o que é segundo Vânia “algo transversal à nossa forma de trabalhar”. Reinterpretaram legados ancestrais com lógicas contemporâneas a partir de materiais como o barro, latão, cal aérea, cortiça e madeira “numa arquitetura que cria uma sinergia e envolvência com a economia local” disse Susana, acrescentando que transformaram esta casa tradicional a partir de uma ótica de contemporaneidade aplicada aos modos de vida de hoje. Para o projeto tiveram também a oportunidade de desenhar os grandes elementos do mobiliário numa mesma lógica, experiência e princípios que a arquitetura: materiais locais, reutilizando lógicas existentes. Segundo Joana, “o mobiliário é sempre simples, responde a um uso, enquadra-se no espaço e cria uma atmosfera”, como é o caso dos blocos de cortiça: três na horizontal fazem uma cama, dois na vertical um banco e três verticais uma cadeira. Quanto ao prémio foram instigadas a concorrer por Carlos. “Como o número de candidaturas era muito elevado, na última seleção de cinco, nem nos passou pela cabeça ganhar o prémio do júri”, contou Joana. Seguiu-se a viagem a Nova Iorque para recebê-lo. “Ainda há pouco falávamos sobre isso. Geralmente não temos oportunidade para estarmos as três noutro registo que não seja em trabalho de arquitetura. A possibilidade de ver outras obras e outros projetos, numa cidade completamente diferente, foi excelente para nós enquanto coletivo”, contou Vânia.

A Alimentação na Casa Modesta

“Tenho sempre a sensação que estou a transportar ovnis” disse Carlos enquanto leva nos braços a cataplana de peixe, previamente preparada por Sandra Patrão – amiga de infância – no workshop Live Cooking. Numa sucessão de várias camadas: corvina, camarão, amêijoas, batata doce, cebola, pimentos, tomate e ervas aromáticas, os ingredientes mantém os seus sabores num prato que preza por uma forma muito saudável de cozinhar. Utilizando os produtos da horta e da região, Sandra começou com uma pequena quantidade azeite enquanto comentou que quando prepara uma cataplana aconselha começar com as amêijoas, passando para a cebola, ervas aromáticas e alho. “Afinal amêijoas e alho são uma combinação perfeita. É um antibiótico natural e devemos usá-lo de forma regular”. Em seguida juntaram-se os vegetais e a batata doce ­– mais saudável do que a batata normal –, os vários peixes em camadas, um pouco de sal (mas pouco), pimenta e paprika. Fecha-se a cataplana, que coze a vapor, e todos os sabores misturam-se harmoniosamente.

Dois dias da semana são destinados às aulas de cozinha. Guida, a amiga de sempre, trata dos pequenos-almoços, e da maior parte das refeições, numa base inspirada na cozinha da avó. Por lá existem vários formatos, o Home Cooking feito por Guida, o Live Cooking que consiste numa demonstração de cozinha ao vivo e que está a cargo de Sandra e existe ainda a aula de cozinha em que os próprios clientes se tornam intervenientes.

Birdwatching, cycling and walking

Os clientes da Casa Modesta dividem-se entre o turismo que procura a arquitetura e a natureza. 75% são estrangeiros, maioritariamente alemães, franceses, espanhóis e americanos. Na verdade, está-se muito bem na Casa Modesta e desenganem-se os amantes do verão e do calor se acharem que só as praias circundantes merecem uma viagem até ao Algarve. O outono e o inverno também têm o seu charme e entre novembro e fevereiro as migrações de pássaros transformam esta área num paraíso para os birdwatchers. Passeios para quem gosta de caminhar e bicicletas disponíveis para quem gosta de pedalar. A ecovia começa em Sagres e a partir de Quatrim do Sul passa pela Fuzeta, Tavira, Cacela e continua junto ao mar até Vila Real de Santo António. Segundo Carlos “há pessoas que vêm para o Algarve e já têm uma bicicleta no aeroporto e um serviço que leva as malas para os hotéis. Ficam a conhecer esta zona a duas rodas”. Nós ficámos fãs do passeio, envolvidos única e simplesmente pela beleza natural e quietude transmitida pelo doce voar dos pássaros. Um passeio longo e relaxante numa sensação que se prolongou com um livro ao final da tarde na cama de rede com vista para a Ria Formosa…

Elsa Garcia

Nasceu em 1976 e é jornalista desde 1994. Fez diversos cursos de Jornalismo no CENJOR (Centro Protocolar de Formação Profissional para Jornalistas) e diversos cursos no âmbito da arte contemporânea, sendo o último a Pós Graduação em Curadoria na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. É membro fundador e directora da revista Umbigo com a qual desenvolveu um projecto de curadoria. Júri e curadora da exposição de Joalharia Contemporânea "On the Other Hand", comemorativa do 5.º aniversário da PIN (Associação Portuguesa de Joalharia Contemporânea). Ainda para a revista Umbigo fez a edição do livro "Coordenadas do Corpo na Arte Contemporânea", numa recolha que reúne uma série de trabalhos artísticos sendo que muitos deles foram desenvolvidos propositadamente para o mesmo; num conjunto de obras que representam uma pequena amostra das preocupações filosóficas e estéticas de um conjunto de artistas.