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Intuition. Uma exposição em Veneza.

Em Veneza, até 26 de novembro. Profanas iluminações no Palazzo Fortuny, dedicadas ao mais elusivo dos temas: a intuição.

Intuition. A intuição não mente.

Intuition coloca-nos no âmago de uma arrojada conjugação de obras de arte, oriundas das mais distintas épocas e coordenadas geográficas. No ambiente sui generis de um interior privado, a montagem densa seduz-nos a percorrer linhas cognitivas e situações estéticas que unem num misterioso fluxo as mais distantes linguagens estéticas.

Experiência incomparável, a mostra presta tributo ao que Aristóteles considerava a suprema forma do conhecimento. Porventura a porta para uma experiência mais autêntica – como propõe Walter Benjamin na sua leitura crítica de Bergson.

© Agata Wiórko

A imagem promocional da exposição sintetiza o programa. Para o curador Axel Vervoordt, diante de White Dark VIII (2000) de Anish Kapoor “sentimos a plenitude do vazio. É longo infindo túnel branco de luz. Não há tempo, nem princípio, e nenhum fim”.

No texto que abre o imponente catálogo, complementa Ludovica Lumer acerca da complexidade do fenómeno da intuição: “Colocamos o cérebro todo ele a trabalhar: a parte visual, a parte cognitiva, a percetual, a emocional, a motora e a memória – tudo em simultâneo!”

© Agata Wiórko

Como habitualmente no Palazzo Fortuny, o ambiente é de serenidade e contenção. O percurso através dos diversos andares funciona como mergulho em apneia nos meandros da arte como conhecimento. Na escolha das obras, o critério da excelência é depois fundamental para acedermos a narrativas paradigmáticas da História da Arte – mais, precisamente, no contacto íntimo com o objeto artístico em si, não com quaisquer discursos parasitas.

© Agata Wiórko

Esta tematização da intuição torna-se em suma – leio na comunicação – “ponte para o sonho, o paranormal, a telepatia, a fantasia, a meditação, o poder criativo, a hipnose e, naturalmente, a inspiração”. Neste quadro, a ‘figura de convite’ da mostra [imagem supra] é especialmente impressiva: estátuas antropomórficas com mais de 5 000 anos (!) em diálogo com o óleo punk Versus Medici de Jean-Michel Basquiat, um ícone bad dos anos 80. Difícil seria dar maior demonstração das virtualidades do anacronismo.

© Agata Wiórko

Ao longo dos vários andares do Palazzo, podem ver-se obras de Joseph Beuys, Karel Appel, Robert Morris ou Ana Mendieta, Gutai, Cobra, Zero ou Fluxus, Gustav Klimt, Giorgio de Chirico, Paul Klee ou Pedro Cabrita Reis; mas o que importa não é o impacto individual de cada chef d’æuvre, e sim a atmosfera criada.

Drapeados, tonalidades, sombras, reflexos – fruto de uma modelação delicada da luz artificial (nos andares de cima abrindo-se à luz natural) – são elementos-chave de uma verdadeira obra de arte total.

© Agata Wiórko

À saída, a reconstrução do pensamento fará o seu trabalho, mas fica registado pelo nosso corpo que foi a intuitiva experiência do lugar a gerar a futura resiliência da memória. Por exemplo, quando rememorarmos o hipnótico vídeo de Michaël Borremans – The Bread, 2012 [imagem supra] – o que ‘veremos’ é não tanto uma obra de arte mas uma espécie de irrupção da estranha beleza da vida. No caso, tendo cruzado os mares da pintura para se aninhar na mais atual tecnologia vídeo.

© Agata Wiórko

Standing Structure for Human Use, peça de Marina Abramovic [imagem supra] é outro exemplo desta arte que funciona como porta sensorial para um plano de elevação da consciência. Para a artista, “a intuição é a chave para o cerne da alma, onde se aninha a ideia”.

Nos andares superiores, a atmosfera é mais desanuviada. Uma instalação participativa de Kimsooja [imagem infra] é o lado solar de um labirinto do silêncio onde uma série de tokonomas – toko significa ‘plataforma’ e ma ‘vazio emoldurado’ – constroem através dos mais simples materiais pequenos cenários para a durée da deambulação.

© Agata Wiórko

© Agata Wiórko

Intuition é a última mostra de um extraordinário ciclo idealizado pelos curadores Axel Vervoordt e Daniela Ferretti. Sucede-se a Artempo (2007), In-finitum (2009), TRA (2011), Tàpies. Lo Sguardo dell’artista (2013) e Proportio (2015). Todas elas, exposições que exploram as ligações transversais entre a filosofia, a ciência, a música, a história, o património criativo e a arte. Uma visão exponenciada pelos meios certamente descomunais disponibilizados.

© Agata Wiórko

© Agata Wiórko

© Agata Wiórko

© Agata Wiórko

Agradecimento especial: Axel & May Vervoordt Foundation e Fondazione Musei Civici di Venezia

Mário Caeiro

Mário Caeiro é conferencista, curador e investigador no campo da cultura urbana e da arte pública. Comissário de exposições e eventos urbanos desde anos 90, é docente na ESAD.CR, onde integra o LIDA – Laboratório de Investigação em Design e Artes. O Doutoramento (2012) em Artes Visuais e Intermédia pela Universidade Politécnica de Valência, Espanha, culminou um percurso académico que passou por licenciaturas em Design de Comunicação pela ESBAL e Estudos Literários Comparados pela FCSH da UNL; mestrado em Estudos Alemães pela mesma Faculdade e pós-graduação em Design Urbano pelo FBAL, Centro Português de Design e Universidade de Barcelona. Em 2014 publicou o livro "Arte na Cidade – História Contemporânea".