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Merda 24 quilates

É condição existencial o horror às fezes. O douto ser civilizado rejeita, ou dificilmente aceita, a ideia que da mesma forma que o organismo que produz as coisas belas do grande arco histórico das produções humanas é o mesmo organismo que regurgita, defeca, urina. As excrescências ligam o sujeito a uma verdade ctónica que dificilmente aceita. Para uma conquista apolínea, há uma quota-parte dionisíaca, fedorenta, que nos dissolve na devassidão do nojento e do execrável. Para cada Rousseau, há um Sade à espreita no olho do cu – invariavelmente, inelutavelmente.

Quando Rousseau se purificava em afazeres femininos (porque a mulher era boa – mal conhecia a perfídia das harpias gregas; e a mulher é pura e não evacua – como muitos homens gostam de crer), longe da pérfida cidade porque a natureza é pura (coitado…), vinha uma ríspida e docemente diabólica Madamme Duclos de Sade chafurdar na merda a que a natureza (a humana e a divina) nos submetia. É que a natureza não é tão boa quanto Rousseau a pinta: a natureza mata, corrói, dilacera, consome, num ciclo grande e interminável – o sparagmos dionisíaco, como Camille Paglia tão bem descreve. Natureza = Merda; Merda = Natureza.

De facto, as fezes sempre foram a confirmação de uma realidade com a qual se lida com sobeja timidez. Tenta escamotear-se, esconder-se de uma vida que considera que toda a alteridade orgânica deve ser remetida para o plano das coisas ocultas. Encerrados na casa de banho, de velas e incensos acesos, expelimos com sacrifício essa verdade repulsiva e pestilenta. (O fedor?) O inorgânico é sempre preferível. A sílica e os transístores passaram a integrar o ritual satânico da merda: para não lembrarmos o serviço que fazemos, acompanhamo-nos de smartphones e tablets para a retrete. A lisura e o brilho dos dispositivos eletrónicos induzem-no numa luz bela que nos afasta da superfície fosca e abjeta das fezes.

Porém, Marquês de Sade não foi o único a escrever com tanta clareza sobre esta condição. Freud concebeu nas suas lições e teorias psicanalíticas a chamada fase anal. Constavam nela todas as coisas da vida adulta que nos obrigavam a uma rotina pouco edificante: o dinheiro, as burocracias e até o colecionismo. Havia que preparar bem a criança nos afazeres do penico para que não tivesse problemas anais no futuro.

Serve este longo prólogo para introduzir a exposição Shit-Baby and the Crumpled Giraffe, de Naufus Ramírez-Figueroa. O pequeno espaço do projeto Kunsthalle Lissabon serve de ensaio a este artista guatemalteco sobre um ideário infantil que se consubstancia numa instalação que ocupa o espaço inteiro, propositadamente concebida para a galeria. A criança sentada no chão e joelhos levantados, a girafa grande e amolgada e a cegonha situam imediatamente o visitante num lugar de memórias bem remotas, no início da construção da identidade de cada um. Mas esse rememorar, não raras vezes nimbado de uma nostalgia romântica e ternurenta, ganha contornos sarcásticos quando nos confrontamos com cocós a voar, no fundo de bacios, caídos no chão, pelos cantos da sala, uma serpente de matéria fecal que se contorce no ar, etc. E, todavia, surge a interrogação: o que faz uma criança só, numa cave isolada, sem luz natural, abandonada à sua imaginação irreal, sem controlo sob o organismo, nem noções de comportamento anal? É que se é certo que as fezes ganham quase estatuto de preciosidades, como cristais coloridos em várias cores, suscitando um riso que tanto comove como esconde um desconforto em quem vê, também é certo que a imagem de uma criança entregue a si mesma, sem supervisão parental, se afigura como dramática. A natureza orgânica, a natureza primeva, não deixa formar uma identidade social num bebé abandonado; antes tolda-a para lá de qualquer convenção e preceito.

Outras leituras serão possíveis: por exemplo, saber se aquela parafernália de nuggets de fezes pintados, com pequenos brilhos vítreos, não serão uma hipótese de infantilização de uma verdade crua que custa assumir. O riso que a merda suscita – a merda dos outros, nunca a nossa e nunca diante dos nossos sentidos – é, realmente, a sublimação de um horror interior. A infantilização surge, portanto, como lenitivo a esse incómodo.

Esta ambiguidade de interpretações – entre o escatológico, o humorístico, o identitário e o dramático – têm, de resto, sido constantes procuras no trabalho do artista. Como o texto curatorial explica, “o artista funciona muitas vezes como um encenador que dá forma a ecos traumáticos, criando imagens impressionantes que evocam sentimentos simultaneamente distintos e irreconciliáveis, que nos falam tanto de um passado violento como de um presente turbulento, sempre com uma certa dose de humor”.

Shit-Baby and the Crumpled Giraffe, patente na Kunsthalle Lissabon, com curadoria de João Mourão e Luís Silva, pode ser vista até 2 de dezembro.

José Pardal Pina

José Rui Pardal Pina (n. 1988) cresceu em Campo Maior e estudou no agrupamento de Artes em Elvas. Obteve o grau de mestre em arquitetura pelo I.S.T. em 2012. Terminou o estágio de admissão à ordem e o estágio profissional no atelier António Barreiros Ferreira – Tetractys Arquitectos. Em 2016 ingressou na Pós-graduação em Curadoria de Arte na FCSH-UNL e começou a colaborar na revista Umbigo. Interessa-se por arte, cinema, política, literatura, moda, arquitetura, decoração…

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