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2ª Edição POSTER

Quando as paredes do nosso quarto são os prédio de Marvila

Quando estiver a ler este texto, já se terão calado os DJ’s, as bandas e terminado todos os micro-eventos que decorreram a 14 de outubro, durante a abertura da 2ª edição do POSTER. No entanto, a essência do evento – a contribuição artística de 25 designers, ilustradores, fotógrafos, escritores, coreógrafos – continuará nas paredes de Marvila até 14 de Novembro. É mais um bom motivo para visitar uma zona de Lisboa que vale a pena conhecer melhor.

Em 2016, Marvila estava a transformar-se numa das zonas mais criativas de Lisboa. O ciclo é típico das grandes cidades – uma área relativamente despovoada, mas com grandes armazéns a preços apetecíveis, começa a ser ocupada por artistas em busca de espaços que possam pagar. Com eles vêm cafés, restaurantes, mais artistas e galerias de arte. Aos poucos, a zona onde só moravam alguns velhotes, passa a ser “the next big thing”. A dinamização aumenta, a recuperação de edifícios também mas, em paralelo, os preços por m2 disparam e a permanência de quem quis lá estar em primeiro lugar torna-se um desafio.

Em 2017, Marvila ainda não está nesse patamar, mas para lá caminha. Neste momento, podemos dizer que está em ponto rebuçado e foi esse o principal motivo que levou Bruno Pereira (responsável pelo Departamento, o “amplificador cultural” por detrás do evento) a escolher novamente esta zona como palco para a mostra. “Marvila ainda tem espaço para a arte ser exposta em liberdade e tem espaço despoluído visualmente. O facto de também não ser superpovoada de população e turismo, deixa-nos espaço livre para a contemplação”, diz.

A assinalar o alargamento da área expositiva do Poster para a zona ribeirinha de Marvila temos o trabalho do Atelier Mob (uma plataforma multidisciplinar de desenvolvimento de ideias, investigação e projetos nas áreas da arquitetura, design e urbanismo) que aborda precisamente todas estas questões. Consistente com a intervenção realizada no terreno pelo Mob, o que está escrito neste poster mesmo à beira da Avenida Infante Dom Henrique – “gentrifica-me mais à frente” – é um mote de reflexão para Lisboa em geral, mas também para esta zona em particular, uma vez que será uma das próximas a ter que lidar com as mudanças na paisagem física, humana e económica.

Mas há mais para ver nesta galeria temporária a céu aberto. Ao todo são 25 trabalhos, 20 de artistas convidados e 5 escolhidos numa open call: André Catarino, António Castanheira, Carolina Caldeira, I+0 (um coletivo de dois estudantes de design e biologia) e Margarida Veiga.

Nos convidados, é de destacar o coletivo israelita de graffiti Broken Fingaz Crew e a designer americana Jessica Walsh, dois dos nomes internacionais que Bruno Pereira nunca pensou que aceitassem o convite e que prontamente responderam sim.

Tal como na primeira edição, há um cruzamento de disciplinas, não se limitando às colaborações esperadas de designers, ilustradores ou fotógrafos. O coreógrafo Rui Horta, a escritora Cláudia Sampaio, a música e ilustradora Cláudia Guerreiro e o músico Sérgio Godinho são alguns dos nomes que revelam no Poster talentos (mais ou menos, conforme o caso) escondidos.

Tal como Marvila, também o Poster cresceu e não só para a zona ribeirinha. Há mais de um ano atrás, Bruno Pereira dizia à Umbigo que “o objetivo era fazer uma intervenção continuada naquela zona, construindo, a cada edição, uma ponte entre os habitantes locais e os artistas” – os que estão nas paredes e os que se foram instalando em Marvila. Em 2017, a promessa foi cimentada com o envolvimento de mais espaços da zona: a Galeria Francisco Fino (instalada num antigo armazém de azeite desde meados deste ano) o Bar Capitão Leitão (também um “habitante” recente da zona) a Galeria Baginski (em Marvila desde 2009) a Fábrica Moderna / Espaço Mais Alguns, o workhub TODOS, o atelier do artista multidisciplinar Tomaz Hipólito, entre outros.

Houve também uma feliz sobreposição com a Oktober Festa, organizada pela Lisbon Beer District (constituída pelas cervejarias Musa, Dois Corvos e Lince, todas elas localizadas em Marvila) e que decorria também a 14 de Outubro, misturando os públicos de um e outro evento.

O Poster criou também um percurso (comunicado nos materiais de divulgação ao público) que não só permite ver os trabalhos expostos, como também passar por todos os espaços mencionados e mais alguns: o Café com Calma, os restaurantes Entra, Aquele Lugar que Não Existe e A Concha, o Cantinho do Vintage, o LX Work Hub, etc. Entre relíquias de Marvila e novas aquisições, estes locais definem a geografia do bairro e tratá-los por tu é uma conquista.

Todas as paredes que servem de galeria à Poster pertencem a proprietários privados. Isto traduz-se em dois anos a bater às portas de Marvila para saber quem são os donos e tentar obter autorização para expor. Não conhecem tudo, mas já mapearam uma boa parte da zona. No fundo, estas colaborações e o percurso que se estende para além da exposição são actos reflexos (e inevitáveis) desse trabalho – não basta fazer, o processo só se completa quando é partilhado.

Outro dos objetivos cumpridos de 2016 para 2017 é o aumento da escala dos posters. Na 1ª edição foram executados no formato clássico de 1,80×1,20m. Este ano têm quase 3m de altura e, mesmo assim, continuam a parecer pequenos nas paredes enormes dos armazéns. Bruno Pereira diz que em 2018 serão ainda maiores e que há também o desejo de fazer pelo menos três edições do Poster por ano e de levar o evento para fora de Lisboa. Por agora, fica a certeza que dentro da cidade não faz sentido assentar arraiais noutra zona que não em Marvila.

Para mais informações e lista completa dos artistas presentes na 2ª edição do Poster, clique aqui.

Colaboradora da Umbigo desde 2000 e troca o passo, a relação tem sobrevivido a várias ausências e atrasos. É formada em Design de Moda, mas as imagens só (lhe) fazem sentido se forem cosidas com palavras. Faz produção para não enferrujar a faceta de control freak, dança como forma de respiração e vê filmes de terror para nunca perder de vista os seus demónios. Sempre que lhe pedem uma biografia, diz uns quantos palavrões e depois lembra-se deste poema do Al Berto, sem nunca ter a certeza se realmente o põe em prática ou se é um eterno objectivo de vida: "mas gosto da noite e do riso de cinzas. gosto do deserto, e do acaso da vida. gosto dos enganos, da sorte e dos encontros inesperados. pernoito quase sempre no lado sagrado do meu coração, ou onde o medo tem a precaridade doutro corpo"

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