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Nova galeria UMA LULIK_

Dia 13 de outubro abre uma nova galeria em Alvalade e, com isto, a confirmação de que Lisboa está a abrir as suas portas à arte e à produção artística, na esperança de trazer novas perspetivas, horizontes e outras formas de entender a arte e o mundo. Às galerias jovens que a Umbigo trata na nova edição impressa, junta-se a UMA LULIK_ (termo tétum que significa casa sagrada), dirigida por Miguel Rios e que se foca nas chamadas novas geografias.

Este termo – um tanto quanto injusto e belicoso do ponto de vista das academias – reporta-se aos países cuja atividade cultural emerge para lá dos tradicionais centros de arte ocidentais e que oscilam entre Nova Iorque, Londres, Paris ou Berlim e, por esta via, questionam a globalização e contemporaneidade. Das regiões do globo que UMA LULIK_ representa, como América do Sul, África, alguns países da Ásia ou do Médio Oriente, muitas pertencem a esta designação.

A visita a esta galeria torna-se, pois, um momento de reflexão sobre a atualidade e a proliferação de discursos e visões por vezes dialogantes, por vezes conflituantes, que resultam de uma polissemia crescente, enriquecedora e que combate a ideia de que o futuro será inevitavelmente homogéneo.

A exposição inaugural Ausência abre com a obra de Joël Andrianomearisoa, um artista nascido em Madagáscar com formação em Arquitetura nas academias de Paris. Delfim Sardo começa o texto curatorial situando a prática do artista do ponto de vista do ocidente e dos conceitos de monocromia, manualidade e acromia, práticas que foram sobejamente exploradas por artistas ocidentais como Yves Klein, Ad Reinhardt ou Piero Manzoni. De facto, o uso do preto e do branco é frequente na obra de Andrianomearisoa que, contudo, e a contrário dos artistas atrás citados, não é bidimensional, mas tridimensional. E se estas aproximações entre artistas ocidentais e o artista madagascarense parecem forçar um contexto exterior a uma leitura pelos olhos do interior, a verdade é que há o reconhecimento de um léxico muito próprio e que pouco deve ao ocidente, radicado que está numa materialidade (e manualidade) muito própria de uma determinada geografia e cultura. Como o curador refere, “as referências autobiográficas razoavelmente crípticas, a sensibilidade dos materiais, a ductilidade das formas e a sua fragilidade, funcionam como motores que ativam as remissões para contextos culturais, bem como para o domínio das poéticas subtis do quotidiano, para o urbano como lugar onde inúmeras linguagens confluem em imagem”.

A abertura do ocidente às culturas de outras geografias obrigam, portanto, a uma revisão dos conceitos que a História da Arte ou, em geral, as ciências e as humanidades, vinham considerando como estáveis e cimentados. A schemata – uma série de padrões, conhecimentos e informações que organizam uma determinada disciplina – da História da Arte e a própria historiografia da História da Arte têm vindo a ser estudadas sob este novo prisma das novas geografias. As exposições, tal como os documentos escritos, são complemento indispensável nesta discussão e, como tal, testemunhos matéricos de artistas cujo ofício parte necessariamente de um entendimento alargado da geografia, da arte e da geografia da arte.

Ausência e UMA LULIK_ abrem no dia 13 de outubro, sexta-feira, às 22h, na Rua Centro Cultural, 15, porta 2.

José Pardal Pina

José Rui Pardal Pina (n. 1988) cresceu em Campo Maior e estudou no agrupamento de Artes em Elvas. Obteve o grau de mestre em arquitetura pelo I.S.T. em 2012. Terminou o estágio de admissão à ordem e o estágio profissional no atelier António Barreiros Ferreira – Tetractys Arquitectos. Em 2016 ingressou na Pós-graduação em Curadoria de Arte na FCSH-UNL e começou a colaborar na revista Umbigo. Interessa-se por arte, cinema, política, literatura, moda, arquitetura, decoração…

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