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Bravo Lear – a tragédia e o monstro

O espetáculo de abertura da temporada do TNDMII é um Lear escuro, desolado. O que os focos de luz rasgam, esquematizando a geometria dos acontecimentos, é um retrato da vida despido do acessório. A iluminação fragmentária da tragédia.

O homem não é nada se não tiver coisas

Vertendo palavras graves sob uma luz dura, cinzenta, os corpos deste Lear deslocam-se em solene suspensão. As intensificações que então se acendem resgatam do olvido arcaicas situações dramáticas.

Ao nível da trama psicológica, a peça aborda as questões da sinceridade e do realismo emocional. Há um cinismo que nos viabiliza o quotidiano e outro que, em contraste, envenena a ética social. Eis uma tensão que experimentamos todos dramaticamente ao longo das nossas vidas, mas que a filha deste rei por uma vez declina, sacrificando a convenção no altar do amor verdadeiro.

Na normatividade social esconde-se grotesca animosidade. O homem é social animal, não o contrário. As irmãs de Cordélia, corporizando esta hipótese, são geladas efígies de um desumano demasiado desumano. Neste plano, a peça retrata a imponderabilidade do sensível que põe em causa as regras públicas, o jogo sociopolítico. Resta saber se o que Lear inconscientemente deseja não é, na prática, evitar o amor – para assim cair, ironicamente, nas suas mais terríveis consequências.

O tema é de grande oportunidade, numa era em que a população envelhece e a sociedade se questiona acerca do sentido do amor e dos bens que um dia aprenderá a redistribuir. É por aí um espetáculo obliquamente sobre economia: sobre bens (também afetivos), sobre a propriedade (também a moral), o acesso a recursos (dos mais simbólicos aos mais chãos). É por aí que a ingenuidade de Cordélia – tintada de hubris – entra em terrível contacto com a realpolitik das inter-relações humanas e sociais. É por aí que os traços fortes com que são definidas as irmãs Goneril e Regan ajudam a tomar consciência da máscara que dissimula e modela a violência. Não são caricaturais.

Não valer nada

A peça é sobre uma bela estupidez, dessas que desmancham a ordem. Quando o rei decide abdicar de ser rei, mas não do seu poder, da sua autoridade ou do seu séquito, a demência é a imagem da irresponsabilidade. Duas coisas possam coabitar numa mesma: o homem e o monarca.

Ora, como que para melhor dar a ver a inanidade, Cordélia praticamente desaparece do quadro. Valorizam-se antes os eixos-territórios Lear/Filhas (Goneril e Regan)/Bobo e Gloucester/Filhos (Edgar e Edmund). É nesses dois grupos que a perplexidade ganha voz e é realisticamente enfrentada. Bruno esconde a voz da verdade para nos atirar à cara essa outra, insofismável: sob o jugo da lei e do seu poder, esquecemos o potencial redentor da honra e da afeição.

Quanto à solução Paula Só, até funciona. Uma atriz no papel de Lear, já se sabe, não é nada de novo, mas a protagonista materializa bem a fragilidade e o devaneio de alguém que comete uma falta de juízo na idade errada. Objeto da nossa piedade, mas também do nosso desprezo, naquele corpo titubeante é sobretudo a voz, no limiar do cómico, que interpreta a condição do velho que já não interessa a ninguém.

Esperar-se-ia em torno de Só uma troupe mais assertivamente orquestrada. Talvez o desenrolar e a articulação das cenas pedisse maior dinâmica. Mas talvez Bravo tenha estado à procura, tão somente, de captar, num quadro de xisto, um diagrama. Sempre com Lear e seu luminoso espelho, o Bobo, no centro.

Fragmento contido

Neste espetáculo, a formalidade do movimento (os atores falam de frente, os braços enfaticamente caídos) tende a alhear o espetador da ação. O excesso de esquematismo contamina a expressão das emoções, também porque os corpos, num registo de grande contenção, são embrulhados numa mortalha de negrume. Sente-se o peso da palavra a vergar a dinâmica performativa que qualquer espetáculo de teatro deve exigir a si próprio para que a ligação emocional com o público não se perca. Em suma, sem momentum, Shakespeare assim vertido aproxima-se de uma cuidada leitura encenada, com a diferença dos figurinos de qualidade e de uma produção acima da média.

Mas também é verdade que este Lear é eficaz no que sintetiza do génio de Stratford-upon-Avon para o atualizar, sobretudo ao nível da des/reconstrução textual. Perde-se no processo um tanto do sangue e do corpo que, sabemos, Shakespeare não abdicava de colocar nos seus textos e espetáculos. Ganha-se um geometrismo desolado.

Ler o clássico

É cuidada a tradução e a adaptação por João Paulo Esteves da Silva. Liberdades subtis – ‘gajos’, ‘dólares’ – são a face mundana de um labor complexo: o texto vertido segue a linha do verso (decassilábico), o que cria um ritmo particular, em torno do sentido da musicalidade das palavras.

No espírito da tradução, o espetáculo, com uns sintéticos 1h45 de duração, procura esquivar-se à tradição para gerar um campo aberto para o espetador mais atento poder circular – através do que melhor ou pior conheça do enredo, através do que melhor ou pior entenda da própria tradição teatral. Nestes termos, este Lear é mais literatura do que teatro – Bravo diz mesmo tratar-se da exposição cénica de um livro.

Aliás, ouvirmos os pensamentos do Rei em voz-off é expediente que reforça este estatuto da voz interior. O problema é se tal tipo de decisão se revela incapaz de criar uma verdadeira… comunidade de leitores.

Let’s get cynical

Lear é sobre o cinismo; duas irmãs fazem o que têm a fazer, o que se espera delas; não dizem o que sentem e sentem o que devem; paralelamente, Cordélia sente o que não pode e diz o que não deve; experimenta um amor individualizado a que a lei não terá capacidade de fazer jus. O rei, entretanto, passa-se.

Como no clássico conto de fadas A Bela e o Monstro, em que também há duas irmãs que desprezam o pai e uma mais nova que no seu afeto conduz ao descalabro, em Lear o monstruoso é a sinceridade. No conto de fadas as coisas resolvem-se. No Lear agora e assim levado ao palco estamos perante um trabalho sobre o negro e o nada. A luz vem da nua arquitetura das palavras e dos focos de luz branca que desenham os atravessamentos da penumbra, qual sonho de uma noite de outono.

Mário Caeiro

Mário Caeiro é conferencista, curador e investigador no campo da cultura urbana e da arte pública. Comissário de exposições e eventos urbanos desde anos 90, é docente na ESAD.CR, onde integra o LIDA – Laboratório de Investigação em Design e Artes. O Doutoramento (2012) em Artes Visuais e Intermédia pela Universidade Politécnica de Valência, Espanha, culminou um percurso académico que passou por licenciaturas em Design de Comunicação pela ESBAL e Estudos Literários Comparados pela FCSH da UNL; mestrado em Estudos Alemães pela mesma Faculdade e pós-graduação em Design Urbano pelo FBAL, Centro Português de Design e Universidade de Barcelona. Em 2014 publicou o livro "Arte na Cidade – História Contemporânea".

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