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Apaixonarte – A versão 2.0 do ser português

A Apaixonarte é o projeto de coração de Cláudia Cordeiro. Instalada há quase cinco anos no número 57 da Rua Poiais de São Bento, esta loja que também é uma galeria, aposta em promover o design e a arte made in Portugal, mas sem rendas, galos de Barcelos ou saudosismo.

Cláudia afirma-se como patriota e defende o que é nacional contra a “falta de amor próprio gigante” dos portugueses. Diz que sempre adorou viajar e quando ia para fora via a forma como lá apostavam no trabalho de artistas locais para promover as cidades. Se quiséssemos trazer uma recordação da viagem, havia mais opções para além dos produtos tradicionais de cada país, enquanto cá continuávamos a ter um mercado muito ligado ao artesanato.

A ideia de criar um espaço que colmatasse esta falha andou na cabeça de Cláudia Cordeiro durante muito tempo e foi a crise que a tornou realidade. Trabalhava em Arquitetura, mas a recessão económica fez com que tivesse menos projetos. Achou que era a altura certa para dar uma volta à vida e nasceu, finalmente, a Apaixonarte.

Entusiasta no discurso e de sorriso largo, é normal que Cláudia se tenha encantando por este espaço rente ao chão, com uma grande montra que deixa entrar a luz e ver a rua. Aninhada numa pequena “ilha” entre São Bento e o início da Calçada do Combro, esta rua fugia às rendas consideravelmente mais altas de ambas as zonas. Estava inserida num bairro histórico, mas era ainda uma pérola por descobrir. “Sempre achei que esta zona ia vingar. Hoje em dia, quase todas as semanas abre um espaço novo. Quando eu vim para aqui era o contrário, quase todas as semanas fechava um”, diz.

Começou por vender apenas objetos, escolhidos com o mesmo critério que ainda aplica hoje: têm que ser feitos em Portugal e por um artista residente no país, mesmo que seja estrangeiro. Valorizam-se produtos contemporâneos e que de alguma forma reinventem o imaginário do que é ser português. Como os Dogues Alemães em cores flúor, da Ugly Dogs, que são uma versão atualizada do cão de loiça, ou a Paleta, uma marca que usa os padrões do mosaico hidráulico aliados ao stencil como meio para revestir paredes e mobiliário a gosto.

No entanto, este fator não é decisivo ou obrigatório. Há peças na Apaixonarte que nada têm a ver com o universo tradicional português, como por exemplo a Rewashlamp, uma marca que produz candeeiros a partir de tambores de máquinas de lavar roupa em fim de vida.

Há cerca de dois anos, o espaço foi adaptado para também poder receber exposições. A primeira foi da street artist Tamara Alves. Entretanto, já por lá passaram as colagens de Margarida Girão, os desenhos de Pedro Zamith, a escultura de Rita Cascais e a ilustração de Sara Feio, entre outros. Todas as peças estão à venda durante o tempo em que estão expostas e algumas mantém-se depois. Aos trabalhos dos artistas escolhidos para expor, juntam-se outros. É o caso das colagens da inglesa Nina Fraser (que, cumprindo o critério, vive em Lisboa há três anos) e as ilustrações DressedFur de Katrina Krumina (nasceu na Letónia e vive no Porto).

No caso da pintura, ilustração e colagem, a ideia é manter um equilíbrio entre a venda de originais e de prints. Parte da filosofia da Apaixonarte — idealista, admite Cláudia — é tornar a arte acessível a todos. “Como é óbvio, não podemos ter um original à venda por 20€, mas podemos ter um print e as pessoas ficam satisfeitas. O que é importante é estarem em contacto com arte. Podem não conseguir ter acesso à forma mais nobre, mas têm acesso de outra maneira. É bom chegar ao maior número de pessoas possível e não ser elitista”, afirma.

Até 30 de Outubro, há nova exposição para ver na Apaixonarte: Geómetra, da designer portuense Ana Areias aka Ana Types Type. Formada em Design Gráfico pela Faculdade de Belas Artes do Porto, os contrastes, as cores saturadas e as composições de formas que dão origem a padrões são a sua perdição — desde os rabiscos que faz quando está ao telefone até ao trabalho que desenvolve em nome próprio ou para clientes. Entre outros, chegou a fazer um backdrop para os espetáculos da Capicua e várias parcerias com o serviço educativo da Casa da Música. Tem uma predileção por aplicar estes padrões ao têxtil, mas para a exposição na Apaixonarte desenvolveu uma série de peças com técnicas mistas sobre madeira e cerâmica. O branco, o preto, o azul e o cor-de-rosa são a paleta escolhida.

Madeira e cerâmica são também as matérias-primas da Madre, uma marca que criou há um ano com Raquel Rei. Nenhum dos objetos da marca tem um uso específico — há copos que podem ser usados para beber chá ou como recipiente para lápis e canetas, por exemplo — mas todos estão ligados à mesa, seja ela a de refeição ou a de trabalho.

Para 2018, a Madre promete uma coleção de têxtil e mobiliário. Até lá, podem ir acompanhando o trabalho de Ana Types Type aqui e as novidades da Apaixonarte ali.

Colaboradora da Umbigo desde 2000 e troca o passo, a relação tem sobrevivido a várias ausências e atrasos. É formada em Design de Moda, mas as imagens só (lhe) fazem sentido se forem cosidas com palavras. Faz produção para não enferrujar a faceta de control freak, dança como forma de respiração e vê filmes de terror para nunca perder de vista os seus demónios. Sempre que lhe pedem uma biografia, diz uns quantos palavrões e depois lembra-se deste poema do Al Berto, sem nunca ter a certeza se realmente o põe em prática ou se é um eterno objectivo de vida: "mas gosto da noite e do riso de cinzas. gosto do deserto, e do acaso da vida. gosto dos enganos, da sorte e dos encontros inesperados. pernoito quase sempre no lado sagrado do meu coração, ou onde o medo tem a precaridade doutro corpo"

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