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Cartazes Cubanos da OSPAAAL 1960-1980, na ZDB

Serve a atual campanha autárquica como momento de reflexão, entre outras coisas, sobre a imagem que os partidos e os candidatos políticos usam para comunicar com os cidadãos. Os cartazes políticos sucedem-se em catadupa, com slogans gastos e uma qualidade gráfica e imagética sofrível, quando não risível. O simples ato de comunicar com a fotografia dos candidatos personifica um ego, e centra as atenções numa pessoa única, individual, e não nas ideias (ideologias) ou nos problemas da comunidade. Os atuais cartazes políticos refletem a maior das doenças da política profissional e atual: a vaidade.

Mas nem sempre assim foi. As vanguardas artísticas do século XX, por exemplo, produziram copiosamente cartazes políticos de elevada qualidade gráfica e de uma limpeza comunicacional impressionante. Arte e política uniam-se em experiências radicais de transmissão de mensagens e imagens de teor ideológico, ainda que este fosse vincadamente totalitário, opressivo e insidioso na maioria das vezes. A instrumentalização política da arte, logicamente, viria corromper toda uma liberdade necessária ao exercício da criação e do pensamento.

Contudo, é com a revolução cubana e as iniciativas de libertação promovidas pela OSPAAAL – Organização de Solidariedade para com os Povos de África, Ásia e América Latina – que os cartazes políticos ganham outros contornos e um novo fôlego criativo. A palavra solidariedade não deve ser remetida para segundo plano. Mediante esta organização e a edição da revista Tricontinental, artistas e políticos pugnaram-se em veicular cartazes que apelassem à igualdade, à justiça económica e social, à tolerância, ao respeito, à independência nacional e à emancipação de qualquer iniciativa colonizadora. Ou seja, foram estas ações voltadas fundamentalmente para os chamados países do terceiro mundo.

A exposição Cartazes Cubanos da OSPAAAL 1960-1980, na ZDB, mostra de forma aturada todo este trabalho gráfico e artístico de cartazes políticos produzidos durante duas décadas, num período em que a figura seminal de Fidel Castro assumia uma gravidade intelectual, crítica e ideológica charneira, e outra, a de Che Guevara, representava um farol combativo e revolucionário por muitos ambicionado. Estes eram símbolos inspiradores, ícones libertários. Um pouco por todo o edifício, do rés-do-chão ao segundo piso, toda a hipocrisia das perversas maquinações da política contemporânea (da década de 60 adiante) é exposta em mensagens ilustradas mais ou menos subliminares, mais ou menos explícitas, com cinismo, humor e inventividade, entre significados e sinais ambíguos e um entendimento profundo da semiótica.

Natxo Checa, o curador da exposição, refere que esta é uma exposição histórica. Mas histórica não significa datada. Estes são documentos que, não obstante as décadas de existência que em si integram, ainda se mantêm atuais tanto do ponto de vista gráfico, como do ponto de vista político. A Síria e o Médio Oriente estão lá, a inelutável guerra Israel-Palestina também. Muitos dos países africanos, ditos oprimidos, compõem igualmente a amostra: Moçambique, Guiné-Bissau, Namíbia, Angola, Congo – e curiosamente, e como Natxo Checa fez notar, são estes países que se no passado foram oprimidos (alguns por Portugal, deixe-se claro), no presente continuam a sê-lo. Ou seja, cerca de cinquenta anos depois, a história mudou muito para alguns, mas permaneceu vagamente inalterada para outros que, todavia, representam uma quota significativa da população mundial.

E se a mostra são simplesmente cartazes, o certo é que a complexidade inerente aos mesmos e à exposição não o é, pelo que foi dito e muito mais (o uso da revista como suporte artístico e de design, o caráter urbano dos próprios cartazes, a reprodutibilidade, o dealbar da fotografia que então passa a concorrer com a ilustração, etc.) E é neste contexto que urge a criação de uma publicação que compile as várias matérias expostas e reflita sobre uma prática frequentemente esquecida e a sua relação com a arte contemporânea, ou com a arte atual. Na incerteza confrangedora dos tempos que correm, é possível que géneros expressivos de combate e resistência venham ao encontro de muito destes documentos.

Cartazes Cubanos da OSPAAAL 1960-1980 foi comissariada por Natxo Checa, ao abrigo da Lisboa Capital Ibero-americana da Cultura, e pode ser vista na ZDB, até 23 de setembro, de quarta-feira a sábado, das 18h às 22h.

José Pardal Pina

José Rui Pardal Pina (n. 1988) cresceu em Campo Maior e estudou no agrupamento de Artes em Elvas. Obteve o grau de mestre em arquitetura pelo I.S.T. em 2012. Terminou o estágio de admissão à ordem e o estágio profissional no atelier António Barreiros Ferreira – Tetractys Arquitectos. Em 2016 ingressou na Pós-graduação em Curadoria de Arte na FCSH-UNL e começou a colaborar na revista Umbigo. Interessa-se por arte, cinema, política, literatura, moda, arquitetura, decoração…

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