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Raio X de uma prática fotográfica

A exposição Raio X de uma prática fotográfica aborda o papel da fotografia de arquitetura e o modo como Fernando Guerra, fundador da FG+SG, a desenvolve. O seu estúdio, com cerca de quinze anos, acompanhou o crescente reconhecimento da arquitetura portuguesa, trabalhando com arquitetos como Álvaro Siza Vieira, Aires Mateus, Manuel Graça Dias, Gonçalo Byrne e João Luís Carrilho da Graça.

Fernando Guerra mostra agora o seu arquivo de imagens e objetos, produto de um trabalho contínuo na área. Os múltiplos pontos de vista que apresenta, desnudos, pretendem ser um raio-X àquilo que considera como a sua prática fotográfica: num antes, com o analógico; e num depois, com o digital. Cada fotografia revela muito mais, para além do visível: equipamento fotográfico, acessórios, ferramentas e drones fazem parte dos bastidores, onde a encenação que procura destabiliza a autonomia da arquitetura. Os elementos estranhos às paredes, como pessoas, animais e automóveis contaminam o ambiente, que o fotógrafo procura captar.

A fotografia é o que relaciona os arquitetos com a sociedade. Não são plantas e cortes, mas sim imagens. São estas que podem expressar intenções e intensidades em arquitetura. “É a fotografia de arquitetura um género temático da fotografia? Ou pertence a fotografia de arquitetura aos modos de representação da arquitetura?” São estas questões que o curador, Luís Santiago Baptista, coloca.

São os fotógrafos que transformam a obra de um arquiteto na possibilidade de ser algo mais; de viajar e renunciar a sua condição primária, estática. A Fernando Guerra interessa isso mesmo, a possibilidade de uma imagem ganhar vida própria, para além de um trabalho entregue. A arquitetura por arquitetura, por si só, não o move. Move-o a ligação às pessoas que encontra, em cada trabalho realizado. A história por trás de cada imagem, onde as fotografias funcionam como âncoras.

É evidente a relação umbilical entre fotógrafos e arquitetos: uma ligação que promove confiança no trabalho de cada um, e que se transforma em amizade. E neste sentido, pode-se evidenciar a relação entre Fernando Guerra e Álvaro Siza Vieira. Este, na exposição, surge como figura fundamental na evolução da sua carreira como fotógrafo.

A cidade e a possibilidade de captação de um ambiente urbano foram, desde cedo, modelos para a prática fotográfica. A evolução técnica no campo da fotografia permitiu a massificação das imagens e divulgação nos meios digitais, embora os temas permaneçam os mesmos. Estas são a principal forma de divulgação, numa sociedade que necessita de imagens, non-stop, para se alimentar. A plataforma últimas reportagens, fundada em 2004 por Fernando Guerra, promove o acesso livre às imagens que tira. Em constante atualização, assume uma necessária mediatização como parte constituinte da sua prática fotográfica.

O projeto expositivo, da autoria do Studio Pedrita (Rita João e Pedro Ferreira), propõe assim diferentes narrativas sobre fotografia organizadas por temas e núcleos, assumindo múltiplos suportes de apresentação.

Raio X de uma prática fotográfica, para ver na Garagem Sul (CCB), até dia 15 de outubro.

Inês Cabral Fernandes

Lisboa (1989). Licenciada em Estudos de Arquitectura (2012) e Mestrado em Arquitectura (2015), ambos pela Universidade Autónoma de Lisboa. Pós-graduação em Curadoria de Arte (2017) pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Desenvolve actividade como arquitecta, num atelier em Lisboa.

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