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Madonna Doce e Tímida

O Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA) tem vindo a receber uma série de exposições temporárias mediante parcerias com museus estrangeiros. Aconteceu no passado com o Museu do Prado, do qual resultou a magnífica exposição Rubens, Brueghel, Lorrain: a paisagem nórdica do Museu Do Prado (2013); com o Palazzo Madama e a Galleria Sabauda que comissariaram Os Saboias. Reis e Mecenas (2014) e; agora com os Museus do Vaticano que trouxeram Madonna: Tesouros dos Museus do Vaticano.

Estas parcerias são da maior importância. Portugal, país pobre em todos os aspetos, necessita de mover esforços semelhantes para que obras de extraordinário valor cheguem aos portugueses e os informem sobre os maiores legados que os mestres do passado facultaram à história da arte e da humanidade. Ver estas exposições é ver a cronologia da arte a desenrolar-se, uma verdadeira lição de história e de arte, de técnicas, ideias e valores vindas de muitos cantos da Europa.

Não é exceção com a mostra de Madonna. As iluminuras estão lá, as predelas também, os manuscritos, os esquiços, os esboços, os frescos, as esculturas e as pinturas. Sem esquecer a tapeçaria ou a arte decorativa.

Na volatilidade valorativa e estética do mundo da arte moderna e contemporânea é reconfortante ver o que é inegavelmente tido como consensual: a mestria assombrosa da arte antiga e dos artistas “clássicos”. O esforço e o labor aturados a cada pincelada, o detalhe minucioso, a atenção e inspiração nas cores e indumentárias revelam parte de um passado, de um modo de fazer que já não é possível. Soma-se a isso o espanto do peso do tempo em cada obra, séculos e séculos que envolvem cada peça numa aura mística inqualificável.

Há nomes incontornáveis de estilos e períodos marcantes indispensáveis: Fra Angelico, Rafael, Van Dyck, Barocci e – espantem-se – Miguel Ângelo, da Vinci e Chagall, sem esquecer as escolas e alguns anónimos que contribuem para a narrativa expositiva.

Porém, a exposição não parece estar isenta de uma certa estranheza e de um ar levemente delicodoce que comprometem uma leitura larval subjacente ao texto curatorial: se se procura abordar o culto mariano então seria de esperar que a exposição deixasse transparecer uma aparente confusão intrarreligiosa – o culto à mulher, numa religião que na sua génese sempre quis expurgar de si tudo o que podia ter de feminino. Fátima (que os curadores, sem esquecer, citam) é o extremar de um caso em que a figura da mulher se sobrepõe à do homem e à do Pai, Aquele que supostamente deveria não ter corpo, mas que, ainda assim, tem género.

Dito isto, Madonna, não acrescenta nada, só revê. Nada há de ctónico nesta exposição para lá da pintura de Chagall, um exercício tremendo de violência, nascimento e amamentação e morte. A mulher que dá à luz, que expele de forma bizarra líquidos uterinos e um ser vivo do ventre, claramente nunca será exibido pela religião. O ideal supera o real na religião católica. Mas uma sugestão podia ser dada sobre esta natureza misteriosa e poderosa da mulher. Subtrair a esta exposição tudo o que há de feminino na mulher é um tanto quanto desinspirador. A mulher ícone é mostrada domada, doce e submissa a uma vontade exógena.

Sai-se também com a ideia de uma visão acrítica das obras escolhidas. O registo diacrónico e cronológico não ajuda e confere a tudo um certo aspeto convencional. O único momento curioso e subversivo é a exibição de um Chagall junto (mas não muito) a obras medievais. É de lamentar que um discurso semelhante não tenha sido aprofundado noutros momentos e que até ajudariam, certamente, a compreender a evolução do tema, da representação e até da própria religião.

E sendo que esta é uma exposição com nomes, que apesar de incontornáveis, menores relativamente a outros sonantes e já elencados acima, parece haver uma impressão de incompletude. Ou seja, mesmo que as maiores e melhores Madonnas aqui não pudessem viajar, não se compreende por que motivo não houve uma valoração sobre o facto de se exporem nomes que fogem à regra. Uma exposição de Madonnas sem Fra Angelico, Rafael, Miguel Ângelo ou Leonardo da Vinci seria igualmente interessante e poderiam até acrescentar alguma novidade. Fica-se com uma noção de formulário expositivo a aplicar, com nomes sonantes, mas sem expressão real.

Do ponto de vista museográfico há, também, algumas considerações que não devem deixar de ser referidas. Não se compreende, por exemplo, a intenção de expor a reprodução da Pietà de Miguel Ângelo num nicho dourado quando na realidade isso não se verifica. Isola e tira a importância à representação. Se a vontade era a de aproximar a um lugar de culto como consta na Basílica de S. Pedro, então essa vontade não pode estar mais distante do que lá se verifica. É que o posicionamento real é da maior importância porque o olhar do espetador é diferente e, no caso do original, dita toda outra proximidade (afastamento) ao culto e à dignidade das personagens que no MNAA não se verifica. Além do mais, e sendo uma cópia, porque não assumi-lo na plenitude e mostrar o que geralmente é escondido ao comum espetador e revelar a escultura em todos os ângulos. Os drapeados posteriores, o movimento de trás, das costas, poderiam conferir uma leitura inusual à obra e que se lamenta não se ter procurado fazer.

Depois, ainda, a divisão, a separação clara da exposição em dois núcleos maiores: um que parece pertencer aos Museus do Vaticano, em que o projeto museográfico segue de forma sensível o azul do manto de Maria, e outro de coleções públicas e privadas portuguesas, em tons francamente diferentes, mas com obras de igual calibre e valor. Esta atitude parece pertencer a uma vaidade institucional infeliz que não abona a favor do projeto até porque uma mistura de obras de vários países, do Vaticano e do país acolhedor, podia ter proporcionado discursos igualmente válidos, se não mesmo mais interessantes.

Apesar destes reparos, as obras são por si só admiráveis. Do conjunto ressalta-se ainda a desarmante normalidade da Virgem com Menino de Orazzio Gentilechi ou a ternurenta e doce peça de Federico Fiori, Repouso na Fuga para o Egito, bem como uma série de desenhos e esquiços que, apesar de tudo, mostram uma atmosfera diferente da das pinturas e assim, atenuam, talvez por força da técnica, o ar meloso da exposição.

Para ver no MNAA até dia 10 de setembro, com curadoria de Alessandra Rodolfo e José Alberto Seabra Carvalho.

José Pardal Pina

José Rui Pardal Pina (n. 1988) cresceu em Campo Maior e estudou no agrupamento de Artes em Elvas. Obteve o grau de mestre em arquitetura pelo I.S.T. em 2012. Terminou o estágio de admissão à ordem e o estágio profissional no atelier António Barreiros Ferreira – Tetractys Arquitectos. Em 2016 ingressou na Pós-graduação em Curadoria de Arte na FCSH-UNL e começou a colaborar na revista Umbigo. Interessa-se por arte, cinema, política, literatura, moda, arquitetura, decoração…

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