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A dor no espírito do olho

Vivemos a hipermodernidade. Ou, em alternativa, vivemos o pós-contemporâneo. A fluidez do tempo e do espaço encaminha-nos num vórtice automático que os corpos tentam frustradamente acompanhar de forma acrítica.

Gilles Lipovetsky cunhou a expressão Ecrã Global remetendo-a para a omnipresença da tecnologia televisual. O olho é assaltado por informação não solicitada. Spam de imagens, spam de textos, hipertextos. O olho tinha um discernimento moral, afetivo. Mas na voragem mediática dos dispositivos digitais, do hiperespaço e do ciberespaço, o olho perdeu essa sensibilidade.

O termo estética ainda existe e é usado amiúde. No entanto mais não é que uma esquematização compositiva de gestos, tonalidades e mensagens estéreis. Um sentido de beleza expurgado de moral. Já não é estética no sentido clássico platónico do termo – “ser belo é ser bom”. O olho e o espírito do olho vivem o tempo da dessensibilização. E se estética remetia a uma estesia, de sentidos e sentimentos hiperbólicos, estética está agora mais perto da anestesia do torpor apático.

Em Shadows, Alfredo Jaar propõe a inversão de uma certa mentalidade empedernida que já não se choca, já não se comove e que se afasta de tudo o que causa comoção. A alteridade do mundo real, a presença do Outro e do sofrimento alheio são indesejáveis. Por outras palavras, pretende reinscrever a moral na estética.

O artista parte da obra do fotógrafo Koen Wessing e de uma fotografia muito particular tirada numa revolta contra a ditadura de Anastasio Somoza Garcia, na Nicarágua. Numa primeira fase da exposição é-nos contada a história factual do assassinato de um camponês a poucos quilómetros de sua casa. O negrume do projeto de arquitetura confere uma atmosfera fúnebre ao conjunto. Vemos uma série de fotografias com um buraco gigantesco da bala, depois uma série de pessoas que tentam socorrer, o transporte até casa e as filhas prostradas, naquele estado de alma anémico antes do luto: a incompreensão, a dúvida, o cansaço do choro, o corpo sem força, caído, debruçado, de o olhar distante. Mas uma fotografia foi subtraída a este conjunto.

Numa instalação vídeo vemos as duas filhas no instante em que vêem o cadáver do pai chegar a casa e correm ao seu encontro. A fotografia foi trabalhada por Jaar de forma a ampliar o pathos, a intensidade da dor, a pungência do drama. Paulatinamente vemos a paisagem a desaparecer, para ficarem apenas as figuras das filhas que, por seu lado se desvanecem na silhueta em branco sobre fundo preto. O momento seguinte é verdadeiramente inesperado. Recorrendo à tecnologia que reproduz a luz solar, vemos essas silhuetas irradiarem uma insuportável luminosidade e incutir no espetador um sincronismo sensorial entre a dor captada pela lente e a dor que os nossos olhos sentem.

E sempre que cerramos os olhos, naquele piscar automático que a biologia nos obriga, a silhueta ficou queimada na retina e acompanha-nos para lá da exposição. Compreendemos o que então o autor pretendia: a sublimação de um momento doloroso que é, também, um momento histórico.

Este é o segundo trabalho de uma trilogia que Alfredo Jaar tem vindo a desenvolver. A primeira parte intitulou-se The Sound of Silence (2006) e partiu também da apropriação da obra de outro fotógrafo – Kevin Carter – que gravou o seu nome nos anais do fotojornalismo com a foto de um menino sudanês a ser duplamente devorado pela fome (perdoe-se o paradoxo) e por um abutre. Carter aguardou pacientemente a chegada da morte da criança e o repasto da ave necrófila, tirou a foto perfeita e ganhou o Pulitzer. Abandonou o local sem prestar socorro à desgraçada alma, desinteressado, no regozijo do seu nobre feito jornalístico. Estetizou a dor e transformou a imagem num ícone mundial que o empurraria ao suicídio no momento em que se constrói em si a consciência da moral que esqueceu.

É portanto nesta indiferença perante as imagens que Jaar constrói o seu discurso curatorial e artístico, procurando humanizar as imagens e o espetador. E a tecnologia, que tem o seu quê de perverso, sugere também a possibilidade de redenção e purificação.

Shadows pode ser vista nas Carpintarias de São Lázaro até 3 de setembro e é uma co-produção CSL (Alda Galsterer e Fernando Belo) e REDE art agency, com desenho expositivo de Alfredo Jaar, Fernando Belo e Verónica de Mello.

José Rui Pardal Pina (n. 1988) cresceu em Campo Maior e estudou no agrupamento de Artes em Elvas. Obteve o grau de mestre em arquitetura pelo I.S.T. em 2012. Terminou o estágio de admissão à ordem e o estágio profissional no atelier António Barreiros Ferreira – Tetractys Arquitectos. Em 2016 ingressou na Pós-graduação em Curadoria de Arte na FCSH-UNL e começou a colaborar na revista Umbigo. Interessa-se por arte, cinema, política, literatura, moda, arquitetura, decoração…

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