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Vasinhos Chineses

Portugal ocasionalmente recebe exposições que se tecem no domínio da interculturalidade e que migram do outro lado do mundo para aqui se exporem. A Fundação Oriente tem-se pugnado por trazer parte considerável da cultura oriental para que todos os portugueses possam compreendê-la e desfrutá-la. Desta vez coube ao MAAT encetar esses intercâmbios culturais com a exposição Branco e Azul do artista, ceramista e escritor Bai Ming.

Os intercâmbios culturais são cada vez mais reconhecidos pela proximidade que votam ao que está distante. É fruto de uma globalização que se quer mais humana e criativa e menos acética, frenética e destrutiva. E Portugal precisa, desesperadamente, desses intercâmbios, mercê da sua incipiente e crónica aposta na cultura e da incapacidade de levar lá fora aquilo que produz. Nesse impasse perene, cabe-nos reconhecer a necessidade de receber cá o Outro para que com ele possamos aprender, conhecer e expandir-nos.

Bai Ming trouxe todo o léxico da cerâmica milenar chinesa e atualizou-o, dotando-o de uma componente pictórica e abstrata incomum na tradicional cerâmica deste país e que sempre fascinou os portugueses desde e que a histórica Rota da Seda o confirma. A cerâmica chinesa deslumbrava de prazer estético, sobretudo a azul e branca, um prazer que, em alternativa, Bai Ming diz reconhecer na cidade de Lisboa, no Rio Tejo, no céu e nos azulejos vítreos dos edifícios.

A exposição e apresentação do artista feitas pelo Presidente da Academia Central das Belas Artes da China Fan Di’an remetem para esses laços centenários entre Portugal e China, desde as viagens marítimas portuguesas pelo mundo até à pungência global do capitalismo chinês que estabelece bases em todo o mundo. O discurso e a exposição são um esforço diplomático, senão mesmo um esforço forçado de um museu que é alimentado por uma empresa outrora pública, agora privada, nas mãos de outra empresa, essa, chinesa, do Estado Chinês. Não há ruturas nem narrativas ideológicas. Não pode haver; seria cair no cinismo moderno.

O curioso nesta exposição, portanto, é mais o que fica por dizer e a compreensão do discurso político e cultural chinês do que o resultado exposto. Interpelados com questões políticas, vinca-se, como resposta, o divórcio entre cultura e política naquele país. São duas entidades totalmente distintas e antagónicas. Neste contexto, Ocidente e Oriente não podiam estar mais distantes. As obras expostas são incapazes de transpirar qualquer espécie de debate político, precisamente porque a arte chinesa não comunga dessa visão de contemporaneidade ocidental, em que o contemporâneo se joga numa discursividade política e nada neutral. O modo de ver do artista chinês é passivo e não procura forçar a transformação naquilo que vê. Antes vê, aprende e reproduz de forma mais ou menos figurativa, mais ou menos mimética.

Não significa, contudo, que não haja obras interessantes e notáveis. E a delicadeza da porcelana vale por si só. O facto de Ming usar a cerâmica mais como suporte pictórico do que uma forma utilitária é também uma componente estimulante do seu trabalho. A instalação Tubo-Gíria (2011) expõe-se em consonância com o Tejo e o céu, em frente aos janelões. Uma série de plataformas azuis e uma certa disposição das peças brancas de cerâmica conferem ao conjunto uma fluidez sensível. É difícil não lembrar ossos de marfim lavados em água, por mais tétrico que pareça. Um pequeno vídeo induz-nos num estado zen quando contemplamos a coreografia da mão e do pincel a ondularem sobre um vaso giratório. Igualmente impressionante são as pinturas em chá, tinta-da-china e queimaduras de incenso sobre papel de arroz. A abstração comunga da tradição daquele país. Parte da vitalidade natural da planta do chá trespassa para a pintura, algo que a água não conseguiria expressar.

O discurso em torno do abstracionismo foi notado por Di’an. Se no ocidente abstracionismo nos remete para uma série de vanguardas modernistas da pintura moderna, no oriente a abstração tem raízes bem mais antigas. Não é em vão que as caligrafias orientais foram tão importantes para artistas modernos ocidentais, nomeadamente a japonesa que sempre esteve em diálogo com o expressionismo abstrato americano. Ming procura rever todas essas diferenças e semelhanças um pouco por toda a sua mostra, sendo que o pendor diplomático e a recusa de um estreitamento entre arte, política e vida evitam qualquer traço de ousadia.

No que à exposição diz respeito, frisar a escolha dos curadores em expor peças de cerâmica no exterior, como já foi mencionado, a instalação em diálogo com a paisagem exterior dos janelões, mas não se compreende a insistente recusa de muitas exposições na Central Tejo em obliterar com paredes falsas brancas o património industrial que podiam conferir ou reforçar a narrativa da cozedura do barro e dos agentes vítreos da cerâmica com a energia e calor produzidos nos geradores e tubagens. (Não terá sido em vão que, ali ao lado, Fernanda Fragateiro tenha querido deitar paredes abaixo e mostrar a materialidade e a singularidade deste edifício.)

Entre estreitamentos e afastamentos, esta é uma exposição de frustrações, do que fica por dizer e da vontade que cada um gostaria de ter ouvido ser dito.

Branco e Azul | Bai Ming – Lisboa pode ser vista até 4 de setembro na Central MAAT e foi comissariada por Fan Di’an, Rosa Goy e Margarida Almeida Chantre.

José Rui Pardal Pina (n. 1988) cresceu em Campo Maior e estudou no agrupamento de Artes em Elvas. Obteve o grau de mestre em arquitetura pelo I.S.T. em 2012. Terminou o estágio de admissão à ordem e o estágio profissional no atelier António Barreiros Ferreira – Tetractys Arquitectos. Em 2016 ingressou na Pós-graduação em Curadoria de Arte na FCSH-UNL e começou a colaborar na revista Umbigo. Interessa-se por arte, cinema, política, literatura, moda, arquitetura, decoração…

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