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Os dois lados da máscara

Fotografias: Francisco Ferreira.

A exposição Tudo o que é profundo ama a máscara procura questionar o observador sobre o caráter ôntico da máscara. E estudar essa ontologia da máscara é, necessariamente, compreender a sua essência mirífica, do que esconde e do que revela, da identidade que transmite e da que finge, do seu interior e do seu exterior, a expressão exógena e a endógena, o seu isolamento, enquanto objeto, e o seu contato, enquanto extensão de um corpo.

A máscara entra no domínio da verdade na medida em que esta é fruto de uma mediação e uma indagação fornecidas por aquela. Por outras palavras, a verdade está sujeita a um jogo de aparências e aprofundamento. A máscara esconde verdades; à verdade chega-se pela máscara, num aturado exercício de hermenêutica.

Numa época em que os discursos se fragmentam em expressões prefixadas por pós ou poli (pós-verdade; pós-contemporaneidade; polissemia; polifonia; polimorfia) a máscara adquire novas interpretações, ou, em alternativa, vê a sua essência expandida e revista. Como a curadora Ana Cristina Cachola refere: “o gesto pictórico e a criação imagética são expostos enquanto embustes, enganos e fingimentos que permitem o surgimento de verdades anteriores e ulteriores, mostrando como todos estes gestos são essenciais para um fazer novo ou de algo novo”.

Desde o seu caráter ritualista, ao seu caráter artístico, a máscara é reflexo de uma discursividade sempre associada ao aspeto criativo, criador e místico da vida e da morte: das máscaras do teatro grego, às máscaras funerárias, às máscaras carnavalescas. E por este motivo a sua complexidade é infinda.

O que esta exposição procura mostrar é a inscrição da verdade numa lógica representativa. As obras de Rita Ferreira e António Neves Nobre são gestos de uma criação dissimulada. São máscaras num palco onde o espetador é convidado a deambular por ele à procura de sentidos e pistas que informem uma verdade. A performatividade é essencial para tal; a busca da verdade não pode ser passiva.

As obras de Rita Ferreira revelam essa duplicidade da máscara e da verdade de modo flagrante: os suportes pictóricos dão acesso a dois lados, duas representações diferentes. A exposição vai estabelecendo várias hipóteses de diálogo não só através destes suportes, mas também com as obras de António Neves Nobre.

Não esquecer ainda que a materialidade das obras é também significante dessa ambiguidade da máscara: há papéis sobrepostos, colados, que se multiplicam até dimensões consideráveis; pinturas sobre papéis translúcidos como o vegetal acrescentam incerteza quanto à sua realidade. No piso inferior da galeria somos convidados a errar por entre uma paisagem imaginada de objetos e frases impercetíveis, deixando um pouco à imaginação o discurso consequente desse vaguear.

E se em Rita Ferreira a associação à máscara se fazia de modo mais imediato, pela fisicalidade das próprias estruturas que recebiam as pinturas, em António Neves Nobre essa associação faz-se mais pela abstração pictórica e pela incerteza em que nos lança na demanda da sua interpretação e/ou contemplação. Do que parecer ser, do que pode ser, ou do que pode vir a ser. A inexistência de títulos remete de igual modo para um desassossego de querer perceber e frustrar, conseguindo-se apenas extrair a parcialidade de uma verdade.

O resultado não coincidirá com um desvelamento do que quer que seja ou venha a ser. Como no estudo das coisas e dos seres, nada está cristalizado e as certezas factuais carecem frequentemente de revisão, pois que muitas vezes, ao contrário do que julgávamos, tivemos somente acesso a uma falsa consciência recolhida da aparência de uma máscara. A verdade está na máscara, mas só na sua profundidade invisível.

Tudo o que é profundo ama a máscara está presente na Galeria 3+1 Arte Contemporânea até 16 de setembro e é comissariada por Ana Cristina Cachola, com as obras de Rita Ferreira e António Neves Nobre.

José Pardal Pina

José Rui Pardal Pina (n. 1988) cresceu em Campo Maior e estudou no agrupamento de Artes em Elvas. Obteve o grau de mestre em arquitetura pelo I.S.T. em 2012. Terminou o estágio de admissão à ordem e o estágio profissional no atelier António Barreiros Ferreira – Tetractys Arquitectos. Em 2016 ingressou na Pós-graduação em Curadoria de Arte na FCSH-UNL e começou a colaborar na revista Umbigo. Interessa-se por arte, cinema, política, literatura, moda, arquitetura, decoração…

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