Top

Identidade de grupo: Vinte e Três, Joalharia Contemporânea da Ibero-América

A exposição PIN – Vinte e Três: Joalharia Contemporânea na Ibero-América inaugurou a 26 de Junho de 2017 na SNBA, Sociedade Nacional de Belas Artes, Rua Barata Salgueiro 36 1250-044 Lisboa. Prolonga-se até 22 de Julho. Tem conceção e curadoria da PIN. O design expositivo é de Fernando Brízio, o design gráfico é de Arne Kaiser e a fotografia é de Eduardo Sousa Ribeiro.

A História, as histórias pessoais, a língua, as relações humanas e um conjunto de tradições constituem os quatro polos do sentimento de pertença que configura uma dada identidade de grupo, no sentido da tradição antropológica do termo. No entanto, numa época em que os horizontes se alargaram, como é aquela em que vivemos, é difícil encontrar uma forma de identidade que se caraterize com esse formato antes apontado, na tradição antropológica que define um lugar.

No caso da joalharia contemporânea, podemos continuar a falar de processo de construção de identidade de grupo. Contudo, desde os anos sessenta, uma teia foi-se estendendo como se configurasse uma rede física que, mais tarde, se tornou virtual. Já não é uma forma de identidade tradicional, como essa antes definida e circunscrita a um lugar físico – como a que os antropólogos tradicionalmente estudavam – mas continua a ser um sentimento de pertença a um grupo. Hoje, inclui rituais físicos próprios, no sentido antropológico, como seja, por exemplo, a ida internacional de muitos artistas, professores, alunos, historiadores, colecionadores, comissários e livreiros ou representantes de revistas do ramo às exposições na Schmuck, em Munique, no mês de março.

Muitos jovens, nomeadamente de países da América Latina, frequentam escolas europeias, pondo em jogo identidades locais e fazendo germinar cumplicidades globais. Há já anos, esta rede também inclui polos virtuais, sendo os principais o Klimt02, editado em Espanha, e o Art Jewelry Forum nos Estados Unidos, embora hajam outros mais, dos quais a PIN – Associação Portuguesa de Joalharia Contemporânea é um exemplo. Em 2010, foi organizado por Valeria Vallarta um encontro físico significativo, o simpósio Grey Area. Esteve relacionado com a Otro Diseño – Foundation for Cultural Cooperation. Decorreu no México. Foi o primeiro encontro internacional de joalharia contemporânea na América Latina. Congregou todos os países da Ibero-américa e muitos europeus de Portugal e Espanha. A PIN e escolas Portuguesas foram convidadas.

Reportando-nos à noção primeiramente apontada, todos estes atores sociais contribuem para tecer uma rede global cuja língua comunicativa é maioritariamente o inglês, embora coexistam línguas locais. A História está em construção, configurando-se através de histórias pessoais e de relações humanas que se cruzam através desses rituais físicos e virtuais, como também através de investigações académicas, de publicações de livros, de revistas e de meios digitais globais, incluindo as tais redes digitais dadas como exemplo.

Somos surpreendidos por um elevado número de joalheiros que nos levam a entender que existe uma identidade de grupo transnacional, que argumentam através de uma linguagem comum que leva a criar peças singularmente únicas, cada uma das quais, sendo ou não usável, propõe diálogos interpretativos com os autores e as peças. Quando existem, os títulos de cada peça ajudam a ler o que os conteúdos – ou matérias – nos querem dizer.

Apesar de haver uma linguagem comum que não é estranha a quem está familiarizado com a joalharia contemporânea, há muita diversidade. Poucos serão os referenciais autorais. Como com toda a arte, para quem desconhece este tipo de joalharia a surpresa será, com certeza, a primeira experiência, até que se pretenda ingressar numa leitura interpretativa daquilo que cada peça poderá dizer por meio de formas e matérias que, por vezes, referem lugares de origem identitária.

Esta exposição, no âmbito do evento Lisboa Capital Ibero-Americana da Cultura 2017 não só cumpre com os objectivos de divulgação da PIN como abrirá, com certeza, uma nova porta e atrairá novos públicos à SNBA, bem como trará a este evento cultural a excelente oportunidade de integrar na sua programação uma disciplina com raízes profundas, mas paradoxalmente emergente dentro de uma perspectiva contemporânea e enquanto forma de expressão plástica e reflexiva.

Através desta exposição a PIN dá a palavra ao público, democraticamente, propondo que cada visitante se interrogue sobre as origens e a identidade de cada participante. De onde será? Quem será? Como age neste mundo global em que há um núcleo de joalheiros que circula em rede? Trata-se de uma aposta assumidamente arriscada por parte da PIN. Esta assenta na capacidade de diálogo dos fruidores com as obras, de modo a passar a palavra para quem observa e interpreta quase sem referências diretas sobre a identidade.

Ana Campos

Ana Campos nasceu no Porto, Portugal, em 1953. É joalheira e dedica-se, também, à investigação nesta área. No campo do ensino, foi professora de projeto e de teorias da arte e do design da joalharia contemporânea. Até 2013, foi diretora do ramo artes/joalharia e coordenadora da pós-graduação em design de joalharia da ESAD – Escola Superior de Artes e Design, em Matosinhos, Portugal. Tem-se dedicado a curadoria e produção de exposições de joalharia nacionais e internacionais. Licenciou-se em Design de Comunicação na FBAUP. Estudou joalharia no Ar.Co, Lisboa e na Escola Massana, Barcelona, como bolseira da Fundação Calouste Gulbenkian. Realizou uma pós-graduação em Relações Interculturais, pela Universidade Aberta, Porto, que conduziu ao mestrado na área de Antropologia Visual, cuja dissertação se intitula "Cel i Mar: Ramón Puig, actor num novo cenário da joalharia". A orientação foi de José Ribeiro. Atualmente, é doutorada em filosofia na Universidad Autónoma de Barcelona. Terminou o doutoramento em 2014, com orientação de Gerard Vilar. Desenvolveu uma tese intitulada: "La joyería contemporánea como arte: un estudio filosófico".

Sem comentários

Escreva um comentário