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Muro

Para derrubar barreiras, Marvila uniu-se em torno do Festival de Arte Urbana

A 2ª edição do MURO organizada pela GAU (Galeria de Arte Urbana), tem como elemento central da programação os graffiti, em parceria com a Gebalis, a Junta de Freguesia e as Bibliotecas. Este ano decorreu em Marvila e foram quatro dias intensos de festa, de celebração em torno da arte urbana. A ideia é promover a celebração do espaço público da cidade, deixando a criatividade fluir. Este ano foi integrado na ação internacional da Lisboa Capital Ibero-Americana de Cultura 2017 – passado e presente, visando proporcionar um momento de encontro e partilha entre artistas dos países da comunidade ibero-americana e os da arte urbana de Lisboa.

Eis porque surgem criadores da street art para trabalharem juntos neste evento. A metodologia adotada foi definida em três vertentes: – a participação de autores nacionais, assegurada por cinco artistas: Godmess, Hazul, Kruella, M. Brum e LS, único artista local; – a presença de cinco nomes dos países ibero-americanos: Gleo da Colombia; Kobra do Brasil; Steep do Equador; Z. Bahamonte da Espanha e Cix Mugre do México e por fim mais cinco vencedores de concursos: Alecrim e The Caver (ambos portugueses) e três sul-americanos: Medianeras da Argentina; J. Douglas e Krammer do Brasil. Entretanto, a GAU convidou ainda o criador venezuelano Flix, possuidor de um estilo inconfundível para realizar uma residência artística durante um mês em Marvila, onde desenvolveu um projeto site specific envolvendo uma colaboração estreita com a população jovem proveniente do Bairro das Salgadas.

Neste conjunto, umas valorizam o trabalho do desenho em detrimento das formas, onde se sente as linhas da composição; outras os artistas pintam diretamente nos murais criando uma maior liberdade e espontaneidade aos elementos do trabalho.

 “As paredes que estamos a animar erguem-se de mãos dadas Inês Machado – GAU

O termo MURO dado ao Festival é sinónimo de distanciamento, apesar de ter uma carga intensa e nem sempre pelas melhores razões, aliada a uma sucessão de acontecimentos políticos, adequa-se a esta arte no sentido positivo, pelo facto dos trabalhos se desenrolarem nas paredes, em blocos do edificado numa tentativa de integrar a arquitetura local.

Ao invés de dividir, de criar barreiras entre as pessoas e as suas mentalidades o Muro serve de elo condutor para as ligar numa comunhão estreita, unindo-as na diversidade, num respeito pelas comunidades locais. Segundo a Coordenadora da GAU, Inês Machado, a ideia-chave é: “O nosso muro tem uma ideia oposta aos muros de que tanto se fala atualmente. Estamos a construir muros para nos unir e não separar”. A escolha do local, que tem sempre norteado a estratégia de atuação da GAU, no Festival tem uma importância crucial, senão mesmo determinante para a agenda neste género de intervenções. Optam sempre por territórios periféricos e afastados dos centros urbanos, havendo a necessidade de os revitalizar, em clara expansão e forte crescimento, pouco explorados, contudo de qualidades excecionais para trabalhar no terreno da arte de rua.

Os núcleos familiares de Marvila necessitavam assim do nascimento de uma nova energia que os ligasse na criação dinâmica de valências urbanas. “Tivemos artistas a pintar ao lado de rebanhos de cabras”. Trata-se de um conjunto de quinze obras de grande escala, construídas na condição de poderem ser observadas ao longe, em empenas de edifícios nos diferentes Bairros; pensadas a partir de dois equipamentos centrais, a Escola Básica e sobretudo a nova Biblioteca Municipal que serviram de âncora, de mola impulsionadora e de ação do núcleo dos trabalhos do Festival. No decurso de várias semanas, por detrás dos andaimes e dos carros elevatórios, as empenas de um cromatismo intenso e com poder apelativo muito forte, foram assim nascendo a pouco e pouco.

No futuro torna-se cada vez mais premente que a Cultura do Município de Lisboa dê relevo a este género de participações contemporâneas de criações artísticas na tentativa de aproximar ativamente as populações locais, com espacial incidência no setor educativo, onde as crianças começam desde cedo a fazer experiências plásticas junto dos autores das peças. Este Festival tem a particularidade de trabalhar com a comunidade local de uma forma intensa e contribuindo para um papel crucial ao nível da inclusão cultural e social, amenizando as tensões existentes e simultaneamente criando novos pólos culturais através da arte urbana. Um evento que procura antes de mais unir as pessoas pela arte, pelo desenho e pelo traço com o objetivo de encontrar um caminho de diálogo.

Manuela Synek

Manuela Synek é colaboradora da revista Umbigo há mais de dez anos. À medida que os anos vão passando, identifica-se cada vez mais com este projeto consistente, em constante mudança, inovador, arrojado e coerente na sua linha editorial. É Historiadora e Crítica de Arte. Diplomada pelo Instituto Superior de Carreiras Artísticas de Paris em Crítica de Arte e Estética. Licenciada em Estética pela Universidade de Paris I - Panthéon – Sorbonne. Possui o "Curso de Pós-Graduação em História da Arte, vertente Arte Contemporânea", pela Universidade Nova de Lisboa. É autora de livros sobre autores na área das Artes Plásticas. Tem participado em Colóquios como Conferencista ligados ao Património Artístico; Pintura; Escultura e Desenho em Universidades; Escolas Superiores e Autarquias. Ultimamente especializou-se na temática da Arte Pública e Espaço Urbano, com a análise dos trabalhos artísticos onde tem feito Comunicações. Escreve para a revista Umbigo sobre a obra de artistas na área das artes visuais que figuram no campo expositivo fazendo também a divulgação de valores emergentes portugueses com novos suportes desde a instalação, à fotografia e ao vídeo, onde o corpo surge nas suas variadas vertentes, levantando questões pertinentes.

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