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Soundscape Factory

O som é um dos meios mais experimentais no seio da arte contemporânea, acompanha-nos desde sempre e promete disponibilizar um infinito leque de possibilidades de substancialização.

João Onofre em colaboração com Miquel Bernat, apresenta-nos Untitled (orchestral), 2017, um site-specific que habita o espaço da Sala das Caldeiras da Central Tejo do Campus da EDP. O objeto artístico, tal como assim o nome nos revela, aborda o som como meio principal, transformando-o e corporalizando-o numa leitura espacial exterior ao edifício, que nos força a mergulhar numa orquestra atmosférica interior, correspondente análogo, ao icónico campo industrial da Central.

Contextualiza-se o espaço e consciencializa-se um passado não muito distante – estamos naquele que foi o motor de alimentação de energia elétrica da cidade de Lisboa. E este facto não é, de todo, alheio ao propósito da função: Untitled (orchestral), fala-nos da ironia que é, uma central elétrica ser palco de arte, de memória, preconizando a performatividade de uma leitura sonora, alimentada através da energia proveniente de painéis solares colocados no exterior, que sustentam os 16 braços robotizados que produzem som ao confrontarem os diferentes elementos do corpo industrial da sala, pronunciando de diferentes maneiras e ritmos o objeto presente, culminando numa orquestra que preenche todo, todo, o espaço envolvente.

Num espaço de tamanha imponência, desde o edifício à maquinaria, Onofre desenvolve a partitura que se encontra à medida de tal magnificência. Nenhuma das partes é eclipsada, antes pelo contrário, são ambos os atores principais, o corpo de palco, que permitem à obra a respiração por vias transcendentes à conceptualização do som.

A metamorfose orquestral encontra-se envolta numa série de fatores meteorológicos, permitindo ao fazer artístico, a participação numa certa qualidade de vida, num ser musical que se transforma ao longo do dia, que comunica e participa no espaço, evocando um espaço de memória imergido na paisagem sonora circundante a ideia metafórica de laboração.

É sem dúvida a noção orgásmica da arte contemporânea. É a sensação de imponência do objeto artístico, que bebe de um discurso sublime, arrebatando com a epifania de que a obra de arte vive de um tempo que não é igual ao nosso.

Curadoria de Benjamin Weil. Até 18 de setembro

Marco d'Oliveira (1992), natural de Viseu e baseado em Lisboa, estudou design gráfico (2010), e licenciou-se em 2013 em História da Arte na FCSH. Frequenta uma pós-graduação em Curadoria de Arte e destaca, como um dos seus principais interesses, o panorama global da arte contemporânea.

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