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Um Atlas para o Desterro

Susana Anágua leva-nos numa viagem sobre o significado da palavra “desterro”, através de um projeto multidisciplinar que relaciona a memória industrial, histórica e toponímica lisboeta, com a imprevisibilidade da composição que o território pode tomar. Um tema que se prolonga no tempo, sem resolução aparente: na mecânica da cidade, enquanto organismo vivo, existem partes desterradas e intrigantes pela sua condição suspensa, em relação à restante cidade.

O ponto de partida da artista é uma zona específica na cidade, o Desterro, de contornos indefinidos na zona dos Anjos, e do seu significado enquanto palavra, passado e futuro: significa lugar despovoado e solitário, remetendo a locais que se encontram ao abandono, expatriados da restante cidade. O nome surge a partir do extinto Hospital de Nossa Senhora do Desterro, que funcionou entre 1591 e 2007, remetendo a tantos outros edifícios e estruturas cuja função foi perdendo valor.

A exposição é iniciada com a imagem de Nossa Senhora do Desterro, padroeira dos expatriados e exilados, numa projecção de vídeo em loop. De seguida é apresentado um friso multimédia constituído por nove imagens, que se vão alternando entre a estaticidade e movimento propositado. Apresentam edifícios e lugares constituintes do trabalho de investigação da artista, que são identificados como lugares desterrados, lançando a ideia de progresso ou decadência. Este conjunto de obras, ou périplo, completa-se com um Atlas constituído através da recolha de fragmentos das imagens anteriormente apresentadas. Um volume de ilustrações elucidativas deste tema, em papel químico, material em desuso pelos avanços tecnológicos que ditaram a sua morte, e relembrando mais uma vez a actividade industrial.

Através do uso de formas documentais e especulativas, a artista contrapõe os sistemas industriais aos regimes económicos e sociais que estão na sua origem, e onde Celso Martins, curador, denota “um fluxo visual e linguístico no qual se surpreende a mudança histórica nos seus movimentos contraditórios e paradoxais”. O seu trabalho traduz-se num exercício de mapeamento e investigação de edifícios e memórias industriais, que se sintetizam nestas três peças apresentadas, onde se revela um confronto entre os vários tempos anacrónicos, que coabitam e tentam dialogar. A juntar à mostra está o projeto musical de 8551120 an adult lullaby.

Desterro, até 27 de Agosto na Sala SONAE do Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado.

Inês Cabral Fernandes

Lisboa (1989). Licenciada em Estudos de Arquitectura (2012) e Mestrado em Arquitectura (2015), ambos pela Universidade Autónoma de Lisboa. Pós-graduação em Curadoria de Arte (2017) pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Desenvolve actividade como arquitecta, num atelier em Lisboa.

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