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Sem Etiquetas

Como poderemos distinguir arte de design sem associar etiquetas? Esta é uma questão importante para a joalharia internacional recente, visto que coexistem. Isto é, são contemporâneas entre si mesmas.

Ambos tipos são frequentemente apresentados lado a lado em exposições, onde o nosso olhar, por si só, não distingue arte de design. Muito une estes dois grande tipos. Mas, forma, cores, matérias ou texturas não são condições para os distinguir. Elaborar ou encomendar séries, também não são condições que definam algo. Já os artistas Pop criavam séries, segundo estes parâmetros. Função (fim ou propósito) – ou a sua ausência – será talvez uma fronteira entre ambos os campos, embora esta não provoque curto-circuito algum do ponto de vista da receção que apenas se centre no olhar. De qualquer modo, toda a joalharia pode ter uma função, isto é ser usada no corpo, ainda que as intenções possam diferir.

O design tem sempre alguma função, embora uma joia não tenha propósitos óbvios como as cadeiras, os bules, os armários, etc. O seu propósito é simbólico, não o vemos de modo óbvio. Mas, uma joia elaborada por um designer tem, nesta medida, funções simbólicas de natureza cultural e social. Mostra, por exemplo, formas de estatuto do usuário – económica ou social – e/ou a representatividade do seu autor, na sua natureza contextual, seja num âmbito limitado ou mesmo internacional. Também funciona como um adorno, que repousa sobre o vestuário, que é usado junto à pele ou que a penetra – como os brincos ou os piercings.

Como já defendia Kant, a arte não tem fim, ou seja não tem função. Engloba aesthetic ideas (ideias estéticas), como dizia, o que equivale aos embodied meanings (sentidos incorporados), como escrevia Arthur Danto. A arte com natureza autónoma – ou seja independente de razões políticas, religiosas ou contextuais – contém símbolos criados pelos artistas. Nas obras, figuram como símbolos, como metáforas não-replicáveis e equivalentes às da poesia ou, ainda, citações de outras obras, ampliações ou outras mudanças de escala – como no caso das imagens de BD de Roy Lichtenstein. Inclui também menções metafóricas seja à arte, seja a aspetos da vida ou do mundo seus contemporâneos, os quais despertaram a atenção de cada artista.

A designada joalharia contemporânea – dita por aproximação com a arte contemporânea – embora possa ser usada sobre o vestuário, não é um adorno, isto é, não tem a função de adornar ou decorar. Contém ideias estéticas, como toda a arte atual. As metáforas, as citações ou as mudanças de escala tornam-se em imagens que argumentam sobre o mundo e a vida, sobre arte, como também sobre o que a própria joalharia foi ou é hoje. Fá-lo através de símbolos tangíveis ou, se preferirmos, tateáveis, como sempre aconteceu com a joalharia. Nisto difere de outras formas de arte. Mas, já que contém símbolos criados, estes não são interpretáveis através do olhar. Se alguma obra, por alguma razão, nos suscita atenção, é sempre necessário ouvirmos o artista que a criou, para conhecermos as suas intenções e as suas interpretações. Os títulos das peças, como em toda a arte, também nos apoiam na interpretação das obras. A joalharia contemporânea é frequentemente mestiça, isto é contém intenções artísticas que se interlaçam com artesanatos a miúdo subtis.

Portanto, não é através do olhar que distinguimos joalharia contemporânea, de natureza artística, e design, também contemporâneo. Este é um trabalho que temos que operar com autorreflexão. A conhecida pulseira Gold Makes You Blind, de Otto Künzli, é uma forma de arte, embora, à vista pareça uma peça de design minimalista. Remete-nos para uma cegueira provocada por atração pelo ouro, a qual se conjuga, se não o pensamos melhor, com fausto, com princípios humanos nefastos, com exploração de mineiros. Aqui, a borracha negra absorve uma esfera de ouro, tornando-a invisível, como se fosse de volta para as profundezas de uma mina. O colar Square Root, de José Carlos Marques, também pode parecer uma peça criada por um designer. No entanto, remete-nos para uma metáfora sobre e em cortiça, sobre a raiz quadrada de múltiplos retângulos desalinhados, para algo não exato e indizível, a não ser através de símbolos cifrados. Habituámo-nos a pensar que o design engloba peças minimalistas, como as de Ana Albuquerque, que aqui argumenta sobre algum rito de passagem ou nascimento. No entanto, existem peças criadas por designers que são um pouco mais barrocas como Cheio de Ramo de Liliana Guerreiro, quem aqui nos remete para uma forma de enchimento, em filigrana, designado com o mesmo nome.

O design é um processo levado por caminhos e, por vezes marcas que, entre outros, preveem que clientes se pretendem atrair. Diferentemente, a arte não prevê nada relativo à receção, oferece-se ao diálogo e a experiências estéticas. Uma vez mais, só a autorreflexão nos conduz por caminhos que não podem, nem devem, levar etiquetas.

Ana Campos

Ana Campos nasceu no Porto, Portugal, em 1953. É joalheira e dedica-se, também, à investigação nesta área. No campo do ensino, foi professora de projeto e de teorias da arte e do design da joalharia contemporânea. Até 2013, foi diretora do ramo artes/joalharia e coordenadora da pós-graduação em design de joalharia da ESAD – Escola Superior de Artes e Design, em Matosinhos, Portugal. Tem-se dedicado a curadoria e produção de exposições de joalharia nacionais e internacionais. Licenciou-se em Design de Comunicação na FBAUP. Estudou joalharia no Ar.Co, Lisboa e na Escola Massana, Barcelona, como bolseira da Fundação Calouste Gulbenkian. Realizou uma pós-graduação em Relações Interculturais, pela Universidade Aberta, Porto, que conduziu ao mestrado na área de Antropologia Visual, cuja dissertação se intitula "Cel i Mar: Ramón Puig, actor num novo cenário da joalharia". A orientação foi de José Ribeiro. Atualmente, é doutorada em filosofia na Universidad Autónoma de Barcelona. Terminou o doutoramento em 2014, com orientação de Gerard Vilar. Desenvolveu uma tese intitulada: "La joyería contemporánea como arte: un estudio filosófico".

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