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The More I Know People, the More I Love Wasted Rita

Crua, crítica, sarcástica, provocadora, feminina, “epifomaníaca”, Wasted Rita não gosta de rótulos, nem de falinhas mansas. Gosta de cumplicidade pura e honestidade dura, ambas sem gelo. Diz que é o resultado da combinação da “música punk no geral e riot grrrl no particular, com divas do RnB dos 90’s”.

A nível criativo, até o Tony Carreira pode ser uma fonte de inspiração, assim como os The Smiths, a Katy Perry ou a Lana del Rey. Mas, acima de tudo, é movida pelas “ações ou resultado de ações desses seres cheios de defeitos e contradições fascinantes, vulgarmente conhecidos por pessoas”.

Filipa Penteado – De Rita Gomes a Wasted Rita. Quem é uma e quem é outra e onde se intersetam?

Wasted Rita – Já não consigo fazer essa distinção. Somos o casal perfeito dos filmes de Hollywood que na vida real não existe, mas em homossexual e comigo própria. Ou em analogia futebolística: tenho dois pontas de lança da mesma equipa dentro de mim (não literalmente) quando um está a quebrar, entra o outro. Wasted Rita comparece a titular nos jogos da liga e Rita Gomes nos jogos para a taça. Estar a usar a terceira pessoa quando me refiro a mim própria e ao meu alter-ego faz-me questionar se existirá um terceiro ponta de lança cá metido. Espero que não, acho que não cabe tanto.

FP – “Making ugly things look good”. No entanto, a tua estética tem qualquer coisa de grotesco. De que forma abordas o feio no teu trabalho?


WR – Da forma mais relaxada possível. O feio bonito é o tipo de bonito que me atrai. Quando viajo, evito tudo o que são espaços turísticos e perco-me na parte mais crua, fora dos padrões normais de visualmente agradável da cidade, onde se pode respirar veracidade. O feio bonito surge naturalmente no meu processo criativo. Procedimento esse que tem de ser completamente aberto tanto ao erro como ao mau. Há dois tipos de feio: o com conteúdo e background visual sólido e o com falta de experiência e imaturidade gráfica. A autenticidade e impulsividade da minha imperfeição, gosto de acreditar, torna-a visualmente interessante e parte do primeiro grupo.

FP – Apesar desse lado mais cru do teu trabalho (que se calhar pode ser considerado mais masculino) há também um lado muito feminino. Não é girly, mas não tem medo do cor do rosa. O teu trabalho caminha nesse equilíbrio entre o masculino e o feminino?

WR – Eu acho o meu lado cru super feminino. Aliás, o meu lado cru está repleto de drama e crises emocionais bem femininas. A sociedade ainda não sabe mas, passo a explicar: as mulheres também podem ter uma atitude forte e um sentido de humor mais amargo que chocolate (muito) amargo. Mais, sermos autónomas, críticas, provocadoras e capazes de agitar cabeças à nossa volta não é uma ameaça para o mundo – é uma mais valia. Isso não faz de nós masculinas, só poderosas.
O meu trabalho caminha entre o desequilíbrio e o equilíbrio da minha própria cabeça sem ligar a géneros ou cores.

FP – Há quem diga que és punk. Eu digo que a definição é redutora. E tu, dizes…

WR – Que faço o que quero como quero, deixando as definições, rótulos e teorias sobre o que faço para os outros. O punk foi uma das minhas maiores bases, um dos meus mais importantes “professores” durante a adolescência. Há influências claras no meu trabalho (directo, curto e incómodo) mas, hoje em dia, já só resta do punk aquilo que eu acho importante que reste. Não lido bem com limitações e o punk, ao contrário do que seria suposto, é, de facto, muito limitado. Por outro lado, se me perguntares o que significa para mim punk, vou sempre responder que é fazeres o que queres, da maneira que queres, respeitando os teus valores acima de tudo. E é exactamente isso o que eu tento fazer todos os dias. Contudo, tenho noção que esta definição é capaz de só fazer sentido no meu mundo.

Definições. Isso deveria ser usado apenas para coisas concretas e constantes e não para processos abstractos em constante reformulação e inovação. Associar um processo criativo a um rótulo não é completamente antagónico e um homicídio à própria liberdade criativa?

FP – Fala-me um bocadinho sobre os statements e as love letters, os teus trabalhos gráficos só com palavras. Play with words in order to keep breathing?


WR – É a tal história do sarcasmo ser o meu acompanhamento favorito, seguido da hipérbole (ambos carbs free) misturada com a outra história de ser uma miúda que pensa muito, em demasia e excessivamente, levando a que tenha muitos orgasmos emocionais e que os liberte em palavras escritas e/ou desenhos. É assim que surgem os statements, as love letters e tudo o que escrevo. São epifanias de discussões e conversas comigo própria e/ou com outros, e teorias sobre o que vejo, sinto e/ou faço. Tenho muitas durante o dia. Sabe bem ser epifomaníaca.

FP – Há quanto trabalhas como ilustradora e como tem sido a experiência até agora? Consegues viver do teu trabalho?


WR – Yes. I. Fucking. Can. Vivo do meu trabalho e de outra forma não seria trabalho, apenas uma actividade paralela. Era bom que toda a gente fizesse, de forma clara, esta separação. Acabei o curso de Design de Comunicação em Julho de 2010, uns meses depois comecei a fazer trabalhos temporários para uma agência criativa e em meados de 2011 resolvi ser Wasted Rita a 100%. Facilmente percebi que seria impossível conseguir ganhar dinheiro suficiente para pagar contas, no entanto, parece que se tiveres um objectivo e te esfolares toda para o conseguires, consegues mesmo.

É extremamente difícil, muito mais do que é possível explicar, principalmente porque faço tudo sozinha e, mais uma vez, a minha atitude independente e provocadora é facilmente tomada como uma ameaça. Mas, cliché atrás de cliché, toda a gente sabe que as coisas difíceis são as mais gratificantes. Toda a gente sabe, mas nem toda a gente tem a coragem necessária para saber o quão gratificante realmente é. Todos os dias tenho um orgulho enorme de tudo o que já consegui e, mais importante ainda, energia, vontade e ideias para conseguir muito mais. Indestrutível é o meu nome do meio.

Colaboradora da Umbigo desde 2000 e troca o passo, a relação tem sobrevivido a várias ausências e atrasos. É formada em Design de Moda, mas as imagens só (lhe) fazem sentido se forem cosidas com palavras. Faz produção para não enferrujar a faceta de control freak, dança como forma de respiração e vê filmes de terror para nunca perder de vista os seus demónios. Sempre que lhe pedem uma biografia, diz uns quantos palavrões e depois lembra-se deste poema do Al Berto, sem nunca ter a certeza se realmente o põe em prática ou se é um eterno objectivo de vida: "mas gosto da noite e do riso de cinzas. gosto do deserto, e do acaso da vida. gosto dos enganos, da sorte e dos encontros inesperados. pernoito quase sempre no lado sagrado do meu coração, ou onde o medo tem a precaridade doutro corpo"

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